Ministério da liturgia
67. A liturgia ocupa, na ação evangelizadora da Igreja, um lugar central. Conforme o Concílio Vaticano II, ela é “ocume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmotempo, a fonte de onde emana toda a sua força”.137Nela, o discípulo realiza o mais íntimo encontro como seu Senhor e, dela, recebe a motivação e a forçamáximas para a sua missão na Igreja e no mundo.68. Em sentido estrito, a liturgia é a celebração do MistérioPascal da morte e ressurreição de Cristo – e de toda ahistória da salvação. Nessa celebração, os que sofrem emorrem, unidos a Cristo e a seu Corpo, que é a Igreja,participam da vitória pascal sobre o mal e as forçasda morte. Ela é ação ritual, que se realiza em sinaise palavras, é santificação do homem e glorificaçãode Deus. A liturgia é celebrada pela comunidade dosbatizados – ministros ordenados e leigos – reunida emtorno de seu sumo sacerdote Jesus Cristo. A celebraçãolitúrgica implica necessariamente um compromissocom a transformação da realidade em vista do crescimentodo Reino de Deus.69. Por ser a comunidade reunida no Espírito Santo, sujeitoda celebração, todos os seus membros têm o direitoe o dever de participar da ação litúrgica, externa einternamente, de maneira ativa, consciente, plena e137 SC, n. 10.61frutuosa,138 para assim levar a obra salvífica do seu Senhora efeito em si, na Igreja e no mundo. Os ministrosordenados e leigos têm uma função especial de serviçona assembléia litúrgica, e toda ela, como comunidadeeclesial de discípulos, está como missionária a serviçodo mundo.70. Para que seja possível tal liturgia autêntica, seus agentes,isto é, todos os batizados, de modo especial osministros ordenados e leigos, devem ser formados “naestrada de uma catequese de caráter mistagógico, queleve os fiéis a penetrarem cada vez mais nos mistériosque são celebrados”.139 Isso supõe que cada celebraçãoseja devidamente preparada e avaliada.71. Os sacramentos são sinais da comunhão com Deus, emCristo, pelo Espírito Santo, que marcam com sua graçamomentos fortes da vida. Pelo Batismo, mergulhandonas águas da morte e da ressurreição,140 a Igreja acolheas pessoas que, na fé, aderem a Cristo e as inserena comunidade cristã. Pela Confirmação, o cristão éimbuído do Espírito do Senhor e seu santo modo deoperar, para viver de forma madura o compromissode discípulo missionário. Pela Eucaristia, sacrifício ebanquete de ação de graças, a Igreja celebra o memorialda morte e ressurreição de Cristo, perfeita ofertaao Pai, alimentando-se do Corpo entregue e do Sangue138 Cf. SC, n. 14.139 Bento XVI. SCa, n. 64.140 Cf. Rm 6,4-11.62derramado do Senhor, em vista do fortalecimento dacomunhão e da missão de todos os seus membros.Pela Penitência-Reconciliação, a Igreja celebra oamor misericordioso do Pai que acolhe e perdoa ospecadores que buscam a conversão e fazem penitência.Pela Unção dos Enfermos, a Igreja celebra a Páscoade Jesus que se une ao sofrimento dos doentes e idosos,oferecendo-lhes a graça do conforto e da curae o perdão. Pelo sacramento da Ordem, o Espíritoconstitui os ministérios ordenados: bispos, presbíterose diáconos; estão a serviço do sacerdócio comum dosfiéis, instituído em favor dos homens e da comunidadeda Igreja.141 Pelo sacramento do Matrimônio, a Igrejacelebra “o amor de Deus pela humanidade e a entregade Cristo por sua esposa, a Igreja”.14272. O domingo é a celebração do Mistério Pascal. É, pois,o principal dia de festa. É o dia em que a família deDeus se reúne para “escutar a Palavra e repartir o Pãoconsagrado, recordar a ressurreição do Senhor na esperançade ver o dia sem ocaso, quando a humanidadeinteira repousar diante do Pai”.143 Como nos lembraJoão Paulo II, é o dia do Senhor, dia de Cristo, dia daIgreja, dia do Homem e dia dos Dias. Por causa disso,é importante promover a pastoral do domingo144141 Cf. CIC, nn. 1539-1553; DA, nn. 186-208.142 DA, n. 433.143 Missal Romano: Prefácio dos Domingos do Tempo Comum, IX.144 Cf. João Paulo II. DD.63e dar a ela “prioridade nos programas pastorais”.145Em muitas de nossas comunidades, no meio rurale na periferia das metrópoles, onde não é possível acelebração regular e assídua da Eucaristia dominical,devemos valorizar a celebração da Palavra, prepararos ministros da Palavra e oferecer-lhes subsídiosde qualidade, pois essas celebrações são o alimentoordinário da vida cristã e missionária de um grandenúmero de nossas comunidades146 que se reúnem para aCelebração Dominical da Palavra, “a qual faz presenteo Mistério Pascal no amor que congrega (1Jo 3,14),na Palavra acolhida (Jo 5,24) e na oração comunitária(Mt 18,20)”.147 Nas comunidades, onde for possível,distribua-se a Comunhão Eucarística, na celebraçãoda Palavra, especialmente aos domingos, segundo asnormas em vigor. Nossas dioceses ou prelazias farãode tudo para garantir, inclusive com a ajuda de padresde outras dioceses, o ritmo seguro das celebraçõeseucarísticas para todas as comunidades, sinal essencialde sua identidade católica.73. O ano litúrgico “revela todo o mistério de Cristo nodecorrer do ano, desde a encarnação e nascimento atéà Ascensão, ao Pentecostes e à expectativa da feliz esperançada vinda do Senhor”.148 Ele, assim, nos propõe145 DA, n. 252.146 Estima-se em 70% o número de comunidades que celebram a Palavra deDeus.147 DA, n. 253.148 SC 102.64um caminho espiritual, ou seja, a vivência da graçaprópria de cada aspecto do mistério de Cristo presentee operante nas diversas festas e nos diversos temposlitúrgicos.149 Em síntese, através do ano litúrgico, osfiéis fazem a experiência de se configurarem ao seuSenhor e dele aprenderem a viver seus sentimentos.150O ano litúrgico não apenas recorda as ações de JesusCristo, nem somente renova a lembrança de açõespassadas, mas celebra com força sacramental e especialeficácia, alimentando assim a vida cristã. Por isso, oano litúrgico, como itinerário sacramental, torna-se umcaminho pedagógico-espiritual nos ritmos do tempo.Ao longo do ano, sejam assumidas as festas de devoçãopopular, visto que, nas expressões religiosas populares,há uma modalidade profundamente inculturadade manifestar a fé,151 imprescindível ponto de partidapara uma fé madura e fecunda,152 “precioso tesouro daIgreja Católica na América Latina”.15374. Na piedade popular, lugar de encontro com JesusCristo, o povo também encontra maneiras simplesde expressar e viver sua fé e o compromisso missionário.154 A digna celebração dos sacramentais, comobênçãos e exéquias, vem ao encontro da alma do povoe oportuniza a celebração do Mistério Pascal.149 Cf. Paulo VI. NUALC, n. 1.150 Cf. Fl 2,5.151 Cf. DA, n. 258.152 Cf. DA, n. 262.153 Bento XVI. DA: Discurso Inaugural, n. 1.154 Cf. DA, n. 261.6575. Como oração do Povo de Deus, verdadeira ação litúrgica,a Liturgia das Horas (Ofício Divino) é excelenteescola e referência fundamental para nossa oraçãoindividual. É uma oração não apenas dos ministrosordenados e dos religiosos, mas também de todos osfiéis leigos, que são convidados a celebrá-la, individualou comunitariamente, em especial os jovens dos nossosgrupos juvenis. Incentivem-se igualmente outrasformas de oração comunitária da Igreja, por exemplo,Ofícios Breves adaptados, Celebrações da Palavra deDeus, Horas Santas, Ladainhas, Ângelus, Via-Sacrae Rosário.76. A música litúrgica é parte integrante e significativa daação ritual. Ela tem a especial capacidade de atingir oscorações e, como rito, grande eficácia pedagógica paralevá-los a penetrar no mistério celebrado. Para isso, elaprecisa estar intimamente vinculada ao rito, ou seja, aomomento celebrativo e ao tempo litúrgico. Vale dizer,sua função ritual deve estar organicamente inseridano contexto da grande tradição bíblico-litúrgica daIgreja, bem como da vida e da cultura da comunidadecelebrante. É urgente atentar para a qualidade de nossocantar litúrgico, para a importância dos vários ministérioslitúrgico-musicais e, mais que urgente, para aformação e capacitação de todos, especialmente daspessoas e equipes que os exercem. Uma prioridadeestratégica, com certeza, são os centros de formação,tanto das congregações e ordens religiosas, quantodo clero diocesano. É de suma importância aprovei66tar todas as instâncias e oportunidades de formaçãooferecidas, em todo o país, por escolas de liturgia,faculdades, dioceses e regionais da CNBB.77. O espaço litúrgico deve ser funcional, favorecer o encontroentre as pessoas e o encontro com Deus, bemcomo sinal sensível do mistério que ali se celebra. Aarte, a arquitetura, a disposição e a ornamentação dosespaços a serviço da liturgia contribuem para que aIgreja celebre e se manifeste como povo sacerdotal, ministerial,congregado e convocado pelo Senhor Jesus. Abeleza, a dignidade e a simplicidade do espaço devemestar em sintonia com a beleza do Mistério Pascal deCristo.155 É fundamental dar especial atenção à formaçãona área da arte sacra e do espaço litúrgico, tantonos seminários quanto entre os profissionais das artes econstrução civil, para que os espaços correspondam àdimensão simbólica e funcional da liturgia. É urgente,também, nos regionais e nas dioceses a implementaçãodas comissões de espaço litúrgico, compostas, preferencialmente,por especialistas nas diferentes áreas(artistas, arquitetos, engenheiros, liturgistas).78. A inculturação incide sobre a vida comunitária eministerial, sobre a formação e reflexão teológica,e sobre as celebrações litúrgicas. “Os indígenas eafro-americanos são, sobretudo, ‘outros’ diferentesque exigem respeito e reconhecimento.”156 Vivemos155 Cf. Bento XVI. SCa, n. 35.156 DA, n. 89.67hoje “um kairós, tempo para aprofundar o encontroda Igreja com esses setores humanos que reivindicamo reconhecimento pleno de seus direitos individuaise coletivos. Eles devem ser levados em consideraçãona catolicidade com sua cosmovisão, seus valores esuas identidades particulares, para viverem um novoPentecostes eclesial”.157 Na liturgia, portanto, é precisorecuperar as expressões culturais, o ritmo, o cantoe a música, os instrumentos musicais, as vestes, osespaços, os gestos e símbolos das diferentes culturas,sem prejuízo das normas litúrgicas gerais e de acordocom as demais orientações do Magistério da Igreja.Expressões culturais assumidas na liturgia devemapresentar com clareza qual é o acontecimento da féque lhes dá um sentido novo e radical.79. Permanecem como solicitude para a Igreja no Brasil,especialmente a partir da dimensão litúrgica, os seguintesdesafios:a) a promoção de uma liturgia mais popular e inculturada,para que também os pobres e excluídos tenhammais espaço para celebrar, no Mistério Pascal deJesus Cristo, sua vida e sua fé;b) a participação em celebrações ecumênicas, dado ocaráter eclesial da liturgia;c) as celebrações transmitidas pela mídia, de responsabilidadedo bispo local, em seu esforço decriatividade, respeitem as normas litúrgicas;157 DA, n. 91.68d) a ligação da Páscoa de Cristo celebrada na liturgia,com a criação e o cuidado com a conservação danatureza.80. A Pastoral Litúrgica compreende todos os esforços einiciativas para animar a vida litúrgica de uma comunidade,paróquia, diocese, região, levando em conta suarealidade histórica, cultural, social, eclesial, de modoque todos os cristãos possam participar da liturgia deforma ativa, consciente e plena, e colher dela os frutosespirituais. Isso inclui cuidados com a preparação,realização e avaliação das celebrações, com a formaçãodos ministros e do povo e com a organização davida litúrgica nos vários níveis eclesiais. Mais do quenunca, em nossa Igreja no Brasil importa priorizar aorganização e a formação de equipes de liturgia emtodos os níveis, sob a orientação dos bispos, primeirosresponsáveis pela animação litúrgica, e com a participaçãodos presbíteros e agentes de pastoral, de modoa contemplar a celebração, formação, inculturação,articulação, organização, música litúrgica e espaçolitúrgico. Do exercício da colegialidade episcopal e docompromisso com a evangelização do povo brasileiro,nasce a solicitude da organização dos serviços daComissão Episcopal Pastoral para a Liturgia, a fim deanimar e fortalecer a Pastoral Litúrgica nos regionais eincentivar a articulação e o intercâmbio de experiênciase recursos entre eles.69Ministério da caridade81. Se as fontes da vida da Igreja são a Palavra e o Sacramento,o centro da vida cristã158 é a caridade, o amordoação,o amor que vem de Deus mesmo159 e que oapóstolo Paulo aponta como o mais alto dos dons.160“Deus é amor, e quem permanece no amor permaneceem Deus e Deus nele.”161 Nossa resposta é acreditarno amor de Deus. Aqui se encontra o distintivo doscristãos nas palavras do próprio Jesus: “Como euvos amei, assim também vós deveis amar-vos unsaos outros. Nisso conhecerão todos que sois meusdiscípulos: se vos amardes uns aos outros”.162 Aquireside, também, a razão fundamental do crescimentoda Igreja, não por proselitismo, mas por atração, pelotestemunho.163 Podemos ainda também afirmar que“toda a atividade da Igreja é a manifestação de umamor que procura o bem integral do ser humano”,164amor esse que “é o melhor testemunho do Deus emque acreditamos”.165158 Bento XVI. DCE, n. 1.159 Cf. Rm 5,5.160 Cf. 1Cor 12,31.161 1Jo 4,16.162 Cf. Jo 13,34s.163 Cf. DA, n. 159.164 Bento XVI. DCE, n. 19.165 Bento XVI. DCE, n. 31.7082. O amor cristão tem duas faces inseparáveis: faz brotare crescer a comunhão fraterna entre os que acolherama Palavra do Evangelho (a koinonia, a partilha dosbens, a solidariedade) e leva ao serviço dos pobres, aocuidado para com os sofredores, ao socorro de todos osnecessitados, sem discriminação.166 Numa sociedadeque privilegia o lucro e a produtividade como valoressupremos167 e na qual a dignidade da pessoa humananão é valorizada,168 a Igreja deve se fazer presente “nasnovas realidades de exclusão e marginalização em quevivem os grupos mais vulneráveis, onde a vida estámais ameaçada”.169 Daí a necessidade de “ratificar epotencializar a opção preferencial pelos pobres”,170“implícita na fé cristológica naquele Deus que se fezpobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza”171e que deverá “atravessar todas as suas estruturas eprioridades pastorais”,172 manifestando-se “em opçõese gestos concretos”.17383. A globalização fez emergir em nosso país novosrostos pobres, novos excluídos e marginalizados da166 Cf. At 3,1-9; 6,1-6; 9,36-42; 20,33-35 etc.; João Paulo II. NNI, nn. 49-53;DA, n. 161.167 Cf. Bento XVI. DA: Discurso Inaugural, n. 2.168 Cf. DA, n. 387.169 DA, n. 401.170 DA, n. 396.171 Bento XVI. DA: Discurso Inaugural, n. 3.172 DA, n. 396.173 DA, n. 397; Cf. Bento XVI. DCE, nn. 28 e 31.71sociedade: os migrantes; as vítimas da violência; osrefugiados; os seqüestrados; as pessoas portadorasdo vírus HIV; os tóxico-dependentes; os idosos; osmeninos e meninas vítimas da prostituição, da violência,de tráfico de pessoas, de grande número deabortos, do trabalho infantil; as mulheres maltratadas,exploradas sexualmente; as pessoas com necessidadesespeciais; os desempregados; os analfabetos digitais;os encarcerados; os moradores de rua; os indígenas eafro-descendentes; os camponeses sem terra.174 Apesardos enormes recursos econômicos e tecnológicos,persistem a concentração dos bens, a insensibilidadeética e a falta de vontade política para resolver essasituação, pela transformação das próprias estruturassociais e econômicas que reproduzem os processos deexclusão e opressão dos mais fracos. Daí o empenhoda Igreja por uma globalização da solidariedade, dafraternidade.84. Devemos estar atentos, contudo, para não reduzir acaridade ao assistencialismo paternalista. Não somentedevemos partilhar da consciência democrática, queexige o respeito pela dignidade de cada pessoa e apromoção efetiva de seus direitos, mas também verna prática da caridade uma oportunidade de doar edoar-se, de aprender e crescer na troca mútua dos bensmateriais e dons espirituais.174 Cf. DA, n. 402.7285. A caridade cristã deve promover a vida humana emtodas as suas modalidades e defendê-la sempre, baseadano fundamento sólido e inviolável dos direitoshumanos.175 Daí a importância do anúncio de uma antropologiaintegral, de uma visão abrangente da pessoahumana, cujo mistério só se aclara à luz do mistériodo Verbo Encarnado.176 Daí, também, a importância dabioética em nossos dias.177 Do mesmo modo impõe-seo dever de cuidarmos do meio ambiente, tão ameaçadopor interesses econômicos e tecnológicos. A destruiçãodo ecossistema prejudica a todos, sobretudo aosmais pobres, como os indígenas e os camponeses.178Igualmente, brota do amor cristão a defesa das culturasindígenas, de seus territórios e de seus valores,179bem como dos afro-descendentes, com sua memóriacultural, sua identidade étnica e sua luta por uma justacidadania.18086. É importante que a Igreja forme pessoas em níveis dedecisão: empresários, políticos, formadores de opiniãono mundo do trabalho, dirigentes sindicais.181 A opçãopelos pobres exige uma pastoral voltada aos constru-175 Cf. DA, n. 467.176 GS 22.177 Cf. DA, n. 465.178 Cf. DA, n. 473.179 Cf. DA, n. 530.180 Cf. DA, n. 533.181 Cf. DA, n. 492.73tores da sociedade,182 sem esquecer de que os pobres eos marginalizados são também “sujeitos de mudançae de transformação de sua situação”.183 Todos os fiéissão também impulsionados pelo Espírito a participarda vida política, pois a vida cristã não se expressasomente nas virtudes pessoais, mas também nas virtudessociais e políticas.184 Os leigos, devidamenteformados, devem estar presentes na vida pública,185atuando como verdadeiros sujeitos eclesiais e competentesinterlocutores entre a Igreja e a sociedade.186Por outro lado, a participação política, motivada pelafé, pode assumir diferentes formas, desde o interessepelos problemas sociais, participação em conselhos dedireito, até a filiação a partidos e a aceitação de cargoseletivos. Muitos em nossa sociedade, especialmente osmais pobres, sofrem devido aos problemas endêmicosde corrupção nessa área.18787. A vivência da escuta da Palavra, da comunhão fraternae do compromisso com a justiça alimenta e expressa aespiritualidade batismal, que configura o cristão comCristo, o qual por amor entrega sua vida para que todostenham Vida.182 Cf. DA, n. 501.183 DA, n. 394.184 Cf. Bento XVI. DA: Discurso Inaugural, n. 3.185 Cf. DA, n. 508.186 Cf. DA, n. 497. Quanto à participação dos clérigos ou religiosos(as) navida político-partidária, atenha-se às normas do Direito Canônico, 285, §3; 287, § 2.187 Cf. DA, n. 507.74A formação dos discípulos missionários88. Diante da atual sociedade pluralista e secularizada, fazsenecessário reforçar uma “clara e decidida opção pelaformação dos discípulos missionários – os membrosde nossas comunidades”.188 O processo formativo dainiciação cristã não é exclusivo dos não-batizados, masse estende também aos batizados não suficientementeevangelizados,189 que constituem a maioria dos católicosem nosso país. Urge, portanto, uma “identidadecatólica mais pessoal e fundamentada”.19089. O discípulo nasce pelo fascínio do encontro com Cristoe se desenvolve pela força da atração que permanecena experiência de comunhão dos discípulos de Jesus.“A Igreja cresce, não por proselitismo, mas ‘por atração:como Cristo atrai tudo para si com a força de seuamor’. A Igreja atrai quando vive em comunhão, poisos discípulos de Jesus serão reconhecidos se amaremuns aos outros como ele nos amou (cf. Rm 12,4-13;Jo 13,34).”19190. “A própria natureza do cristianismo consiste, portanto,em reconhecer a presença de Jesus Cristo e segui-lo.Essa foi a maravilhosa experiência daqueles primeirosdiscípulos que, encontrando Jesus, ficaram fascinados188 DA, n. 276.189 Cf. DA, n. 288.190 DA, n. 297.191 DA, n. 159.75e cheios de assombro face à excepcionalidade dequem lhes falava, diante da maneira como os tratava,coincidindo com a fome e sede de vida que havia emseus corações. O evangelista João nos deixou porescrito o impacto que a pessoa de Jesus produziu nosprimeiros discípulos que o encontraram, João e André.Tudo começa com uma pergunta: ‘que procuram?’(Jo 1,38). A essa pergunta seguiu um convite a viveruma experiência: ‘Venham e verão’ (Jo 1,39). Essanarração permanecerá na história como síntese únicado método cristão.”19291. Esse itinerário formativo deve partir de “um encontropessoal, cada vez maior, com Jesus Cristo, perfeitoDeus e perfeito homem, experimentado como plenitudeda humanidade”,193 através do anúncio do querigma,do testemunho da comunidade, da participação nos sacramentos,constituindo assim uma autêntica catequesemistagógica.194 O processo implica a possibilidadede uma aprendizagem gradual, devendo a comunidadeeclesial assumir essa iniciação cristã, fato que pedenovas atitudes pastorais por parte dos responsáveis.195Pois, identificar-se com Cristo e com sua missãoconstitui “um caminho longo que requer itineráriosdiversificados, respeitosos dos processos pessoais e192 DA, n. 244.193 DA, n. 289.194 Cf. DA, n. 290.195 Cf. DA, n. 291.76dos ritmos comunitários, contínuos e graduais”.196 Emoutras palavras, “a formação é permanente e dinâmica,de acordo com o desenvolvimento das pessoas e como serviço que são chamadas a prestar, em meio àsexigências da história”.19792. No processo de formação do discípulo missionárioaparecem cinco aspectos fundamentais, diversos “emcada etapa do caminho, mas que se complementamintimamente e se alimentam entre si”.198• o encontro com Jesus Cristo, através do querigma,fio condutor de um processo que culmina na maturidadedo discípulo e “deve renovar-se constantementepelo testemunho pessoal, pelo anúncio do querigmae pela ação missionária da comunidade”;199• a conversão, resposta inicial de quem crê em JesusCristo e busca segui-lo conscientemente;200• o discipulado como amadurecimento constante noconhecimento, amor e seguimento de Jesus Mestre,quando também se aprofunda o mistério de suapessoa, de seu exemplo e de sua doutrina,201 graçasà catequese permanente e à vida sacramental;196 DA, n. 281.197 DA, n. 279.198 DA, n. 278.199 DA, n. 278a.200 Cf. DA, n. 278b.201 Cf. DA, n. 278c.77• a comunhão, pois “não pode existir vida cristã forada comunidade: nas famílias, nas paróquias, nascomunidades de vida consagrada, nas comunidadesde base, nas outras pequenas comunidades emovimentos”,202 tal como acontecia entre os primeiroscristãos; a comunhão na fé, na esperança e noamor deve estender-se também aos irmãos e irmãsde outras tradições cristãs;• a missão, que nasce do impulso de compartilhara própria experiência de salvação com outros, deplenitude e de alegria feita com Jesus Cristo; amissão deve acompanhar todo o processo, emboradiversamente, conforme a própria vocação e o graude amadurecimento humano e cristão de cada um,203tendo Maria como modelo perfeito do discípulomissionário.93. Muito ajudará nesse itinerário formativo que a Igrejareforce quatro eixos em sua pastoral, que aparecemquando se busca esclarecer as razões pelas quais católicosdeixam a Igreja para se unir a outros gruposreligiosos. Geralmente, são por falta de formaçãocatequética adequada e de cunho vivencial.204 Esseseixos são:• a experiência religiosa feita no encontro pessoalcom Jesus Cristo;202 DA, n. 278d.203 Cf. DA, n. 278e.204 Cf. DA, n. 225.78• a vivência comunitária que propicie acolhimentofraterno e valorização pessoal, de forma que cadafiel se sinta visível e eclesialmente incluído naIgreja;• a formação bíblico-doutrinal que proporcionemaior conhecimento da Palavra de Deus e maiorcrescimento espiritual;• o compromisso missionário de toda a comunidade,indo ao encontro dos afastados e não-praticantes.20594. A iniciação cristã, um processo integral, constitui-senuma formação básica destinada a todos os membrosdo povo de Deus, “qualquer que seja a função quedesenvolvem”.206 Além disso, nestes tempos em que arealidade se torna cada vez mais complexa, exigindoconhecimento e atuação especializados, torna-se indispensávelconsiderar o que é específico a cada vocação,a cada ministério e serviço na comunidade eclesial ena sociedade. Ao mesmo tempo em que se forma aidentidade cristã, é preciso investir no conhecimentodas diversas realidades.95. A formação dos diáconos e presbíteros exige umaatenção especial para que respondam aos desafios darealidade atual e contribuam para que toda a Igrejaseja discípula missionária. Oriundos de uma cultura205 Cf. DA, n. 226.206 DA, n. 276.79marcada pela fragmentação, pela preponderância doaspecto individual e pela dificuldade em relação aprojetos comuns e a longo prazo, essas vocações demonstramque o Senhor Jesus, o Bom Pastor, continuaa chamar ao seguimento, cumprindo sua promessa deestar com sua Igreja até o final dos tempos.207 Apresentamtambém à pastoral vocacional e, mais ainda,às equipes formadoras, o desafio de encontraremcaminhos que, acolhendo os que chegam, possamefetivamente prepará-los para estar no mundo, sem,todavia, serem do mundo.208 Da formação permanentedos presbíteros depende em grande parte a necessáriaformação dos fiéis. É indispensável ainda que diáconose presbíteros tenham formação ecumênica adequadae interdisciplinar.96. Uma formação permanente e integral209 possibilitaráaos leigos a descoberta de sua própria vocação e osmotivará para assumirem sua missão. A Igreja particulardeve ter entre suas prioridades esse processoformativo,210 que “não é um privilégio para poucos,mas sim um direito e um dever para todos”,211 comoparte do “projeto orgânico de formação”212 dioce-207 Cf. Mt 28,20.208 Cf. DA, nn. 99c; 192; 314ss; Jo 17,11.14.209 Cf. CNBB. Doc. Missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas, nn.175-189. São Paulo, Paulinas, 1999.210 Cf. João Paulo II. CfL, n. 57.211 João Paulo II. CfL, n. 63.212 DA, n. 281.80sana. Requerem-se dos leigos co-responsabilidadena tarefa formativa213 e participação nas equipes deformação.21497. A Igreja conta com a variedade e o dinamismo doscarismas da Vida Consagrada na realização de suamissão evangelizadora. Os religiosos e religiosas, apartir de seus carismas, são convidados a colaboraremcom as Igrejas particulares para formar discípulosmissionários.98. Reafirmamos a importância e mesmo a urgência deinvestir na formação específica dos leigos e leigas215“para darem testemunho de Cristo e dos valores doReino”216 no que diz respeito às grandes questões queafetam o povo brasileiro e, nesta época de globalização,o planeta como um todo. São, por exemplo, questões ligadasà responsabilidade socioeconômica e política,217à ecologia,218 ao diálogo com as diversas culturas,219entre as quais a cultura urbana.220 Em cada um desses213 Cf. DA, n. 202.214 Cf. DA, n. 281.215 Cf. DA, n. 283.216 DA, n. 212.217 Cf. DA, n. 77.218 Cf. DA, n. 66.219 Cf. DA, n. 341.220 Cf. DA, n. 118k.81setores, e em muitos outros,221 o conhecimento especializadoe devidamente nutrido pelo Evangelho, pelaDoutrina Social da Igreja e por uma forte sensibilidadeética, representa hoje a concretização da responsabilidadede todos os leigos e leigas como missionários nomundo através do anúncio de Jesus Cristo e do diálogoe serviço, para a transformação da sociedade.22299. Para que tenhamos um laicato adulto e maduro, sãofundamentais a organização e a articulação dos leigos,de modo especial nos Conselhos Diocesano, Regionale Nacional de Leigos, “porque incentivam a comunhãoe a participação na Igreja e sua presença ativa nomundo”.223 Nessa perspectiva, é necessário fortalecero Conselho Nacional dos Leigos do Brasil (CNLB),nos diferentes âmbitos.224221 O Documento de Aparecida aborda, de maneira geral, o processo formativodos leigos e leigas. Explicita a necessidade da formação em determinadoscampos de atuação, por exemplo: “No âmbito da vida social, econômica,política e cultural” (212); no ecumenismo (cf. 232); com os migrantes(cf. 413); na defesa da vida (cf. 469h); na comunicação (cf. 486 – b e f);na pastoral urbana (cf. 517h e 5l8k); nos novos areópagos e centros dedecisões (cf. 492 e 497); na vida pública (cf. 505 e 506).222 Cf. DA, n. 283.223 Cf. DA, n. 215; SD, n. 98; CNBB. Doc. Missão e ministérios dos cristãosleigos e leigas, n. 191. São Paulo, Paulinas, 1999.224 Cf. CNBB. Doc. Missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas, nn. 192e 193. São Paulo, Paulinas, 1999.82A espiritualidade do discípulo missionário100. A missão evangelizadora exige não só estruturas adequadas,mas também que os sujeitos sejam alimentadospor uma espiritualidade missionária conforme aprópria vocação, os dons, os carismas e os ministériosrecebidos do Espírito para a realização do Reino.Técnicas e instrumentos são importantes, mas nãosubstituem a ação do Espírito Santo, que faz arder ocoração do seguidor de Jesus e o coloca no caminhodos irmãos para expressar sua experiência.225 Fazemparte da própria missão evangelizadora a alimentaçãointerior que sustenta a eficácia de seu agir, a fidelidadeao Evangelho e a autenticidade do testemunho.101. A ação evangelizadora e pastoral, como serviço damissão e obediência ao Espírito, exige do evangelizadorcuidar da própria competência, para que, pornegligência, não venha a perder o Evangelho. Exigesábia aplicação dos instrumentos modernos, com critériosevangélicos. “Mas nada substitui a experiênciado Deus vivo, alimentada constantemente:• pela escuta da Palavra de Deus tanto no livro daEscritura quanto no livro da vida;• pela participação na Eucaristia e demais celebrações; 225 Cf. Lc 24,32-35.83• pela oração generosa aberta a Deus e à sua presençana realidade humana;• pelo abandono ao Espírito, que precede a ação doevangelizador, assiste-o cotidianamente, confortando-o nas dificuldades e mesmo nos fracassos;• pela doação de si mesmo no serviço aos demais.”226Trata-se de aspectos fundamentais da espiritualidadedos discípulos missionários.226 CNBB. Doc. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil:2003-2006, n. 101. São Paulo, Paulinas, 2003.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Ministério da liturgia
67. A liturgia ocupa, na ação evangelizadora da Igreja, um lugar central.
Conforme o Concílio Vaticano II, ela é “ocume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmotempo, a fonte de onde emana toda a sua força”.137Nela, o discípulo realiza o mais íntimo encontro como seu Senhor e, dela, recebe a motivação e a forçamáximas para a sua missão na Igreja e no mundo.68. Em sentido estrito, a liturgia é a celebração do MistérioPascal da morte e ressurreição de Cristo – e de toda ahistória da salvação. Nessa celebração, os que sofrem emorrem, unidos a Cristo e a seu Corpo, que é a Igreja,participam da vitória pascal sobre o mal e as forçasda morte. Ela é ação ritual, que se realiza em sinaise palavras, é santificação do homem e glorificaçãode Deus. A liturgia é celebrada pela comunidade dosbatizados – ministros ordenados e leigos – reunida emtorno de seu sumo sacerdote Jesus Cristo. A celebraçãolitúrgica implica necessariamente um compromissocom a transformação da realidade em vista do crescimentodo Reino de Deus.69. Por ser a comunidade reunida no Espírito Santo, sujeitoda celebração, todos os seus membros têm o direitoe o dever de participar da ação litúrgica, externa einternamente, de maneira ativa, consciente, plena e137 SC, n. 10.61frutuosa,138 para assim levar a obra salvífica do seu Senhora efeito em si, na Igreja e no mundo. Os ministrosordenados e leigos têm uma função especial de serviçona assembléia litúrgica, e toda ela, como comunidadeeclesial de discípulos, está como missionária a serviçodo mundo.70. Para que seja possível tal liturgia autêntica, seus agentes,isto é, todos os batizados, de modo especial osministros ordenados e leigos, devem ser formados “naestrada de uma catequese de caráter mistagógico, queleve os fiéis a penetrarem cada vez mais nos mistériosque são celebrados”.139 Isso supõe que cada celebração seja devidamente preparada e avaliada.71. Os sacramentos são sinais da comunhão com Deus, em Cristo, pelo Espírito Santo, que marcam com sua graçamomentos fortes da vida. Pelo Batismo, mergulhandonas águas da morte e da ressurreição,140 a Igreja acolheas pessoas que, na fé, aderem a Cristo e as inserena comunidade cristã. Pela Confirmação, o cristão éimbuído do Espírito do Senhor e seu santo modo deoperar, para viver de forma madura o compromissode discípulo missionário. Pela Eucaristia, sacrifício ebanquete de ação de graças, a Igreja celebra o memorialda morte e ressurreição de Cristo, perfeita ofertaao Pai, alimentando-se do Corpo entregue e do Sangue138 Cf. SC, n. 14.139 Bento XVI. SCa, n. 64.140 Cf. Rm 6,4-11.62derramado do Senhor, em vista do fortalecimento dacomunhão e da missão de todos os seus membros.Pela Penitência-Reconciliação, a Igreja celebra oamor misericordioso do Pai que acolhe e perdoa ospecadores que buscam a conversão e fazem penitência.Pela Unção dos Enfermos, a Igreja celebra a Páscoade Jesus que se une ao sofrimento dos doentes e idosos,oferecendo-lhes a graça do conforto e da curae o perdão. Pelo sacramento da Ordem, o Espíritoconstitui os ministérios ordenados: bispos, presbíterose diáconos; estão a serviço do sacerdócio comum dosfiéis, instituído em favor dos homens e da comunidadeda Igreja.141 Pelo sacramento do Matrimônio, a Igrejacelebra “o amor de Deus pela humanidade e a entregade Cristo por sua esposa, a Igreja”.14272. O domingo é a celebração do Mistério Pascal. É, pois,o principal dia de festa. É o dia em que a família deDeus se reúne para “escutar a Palavra e repartir o Pãoconsagrado, recordar a ressurreição do Senhor na esperançade ver o dia sem ocaso, quando a humanidadeinteira repousar diante do Pai”.143 Como nos lembraJoão Paulo II, é o dia do Senhor, dia de Cristo, dia daIgreja, dia do Homem e dia dos Dias. Por causa disso,é importante promover a pastoral do domingo144141 Cf. CIC, nn. 1539-1553; DA, nn. 186-208.142 DA, n. 433.143 Missal Romano: Prefácio dos Domingos do Tempo Comum, IX.144 Cf. João Paulo II. DD.63e dar a ela “prioridade nos programas pastorais”.145Em muitas de nossas comunidades, no meio rurale na periferia das metrópoles, onde não é possível acelebração regular e assídua da Eucaristia dominical,devemos valorizar a celebração da Palavra, prepararos ministros da Palavra e oferecer-lhes subsídiosde qualidade, pois essas celebrações são o alimentoordinário da vida cristã e missionária de um grandenúmero de nossas comunidades146 que se reúnem para aCelebração Dominical da Palavra, “a qual faz presenteo Mistério Pascal no amor que congrega (1Jo 3,14),na Palavra acolhida (Jo 5,24) e na oração comunitária(Mt 18,20)”.147 Nas comunidades, onde for possível,distribua-se a Comunhão Eucarística, na celebraçãoda Palavra, especialmente aos domingos, segundo asnormas em vigor. Nossas dioceses ou prelazias farãode tudo para garantir, inclusive com a ajuda de padresde outras dioceses, o ritmo seguro das celebraçõeseucarísticas para todas as comunidades, sinal essencialde sua identidade católica.73. O ano litúrgico “revela todo o mistério de Cristo nodecorrer do ano, desde a encarnação e nascimento atéà Ascensão, ao Pentecostes e à expectativa da feliz esperançada vinda do Senhor”.148 Ele, assim, nos propõe145 DA, n. 252.146 Estima-se em 70% o número de comunidades que celebram a Palavra deDeus.147 DA, n. 253.148 SC 102.64um caminho espiritual, ou seja, a vivência da graçaprópria de cada aspecto do mistério de Cristo presentee operante nas diversas festas e nos diversos temposlitúrgicos.149 Em síntese, através do ano litúrgico, osfiéis fazem a experiência de se configurarem ao seuSenhor e dele aprenderem a viver seus sentimentos.150O ano litúrgico não apenas recorda as ações de JesusCristo, nem somente renova a lembrança de açõespassadas, mas celebra com força sacramental e especialeficácia, alimentando assim a vida cristã. Por isso, oano litúrgico, como itinerário sacramental, torna-se umcaminho pedagógico-espiritual nos ritmos do tempo.Ao longo do ano, sejam assumidas as festas de devoçãopopular, visto que, nas expressões religiosas populares,há uma modalidade profundamente inculturadade manifestar a fé,151 imprescindível ponto de partidapara uma fé madura e fecunda,152 “precioso tesouro daIgreja Católica na América Latina”.15374. Na piedade popular, lugar de encontro com JesusCristo, o povo também encontra maneiras simplesde expressar e viver sua fé e o compromisso missionário.154 A digna celebração dos sacramentais, comobênçãos e exéquias, vem ao encontro da alma do povoe oportuniza a celebração do Mistério Pascal.149 Cf. Paulo VI. NUALC, n. 1.150 Cf. Fl 2,5.151 Cf. DA, n. 258.152 Cf. DA, n. 262.153 Bento XVI. DA: Discurso Inaugural, n. 1.154 Cf. DA, n. 261.6575. Como oração do Povo de Deus, verdadeira ação litúrgica,a Liturgia das Horas (Ofício Divino) é excelenteescola e referência fundamental para nossa oraçãoindividual. É uma oração não apenas dos ministrosordenados e dos religiosos, mas também de todos osfiéis leigos, que são convidados a celebrá-la, individualou comunitariamente, em especial os jovens dos nossosgrupos juvenis. Incentivem-se igualmente outrasformas de oração comunitária da Igreja, por exemplo,Ofícios Breves adaptados, Celebrações da Palavra deDeus, Horas Santas, Ladainhas, Ângelus, Via-Sacrae Rosário.76. A música litúrgica é parte integrante e significativa daação ritual. Ela tem a especial capacidade de atingir oscorações e, como rito, grande eficácia pedagógica paralevá-los a penetrar no mistério celebrado. Para isso, elaprecisa estar intimamente vinculada ao rito, ou seja, aomomento celebrativo e ao tempo litúrgico. Vale dizer,sua função ritual deve estar organicamente inseridano contexto da grande tradição bíblico-litúrgica daIgreja, bem como da vida e da cultura da comunidadecelebrante. É urgente atentar para a qualidade de nossocantar litúrgico, para a importância dos vários ministérioslitúrgico-musicais e, mais que urgente, para aformação e capacitação de todos, especialmente daspessoas e equipes que os exercem. Uma prioridadeestratégica, com certeza, são os centros de formação,tanto das congregações e ordens religiosas, quantodo clero diocesano. É de suma importância aprovei66tar todas as instâncias e oportunidades de formaçãooferecidas, em todo o país, por escolas de liturgia,faculdades, dioceses e regionais da CNBB.77. O espaço litúrgico deve ser funcional, favorecer o encontroentre as pessoas e o encontro com Deus, bemcomo sinal sensível do mistério que ali se celebra. Aarte, a arquitetura, a disposição e a ornamentação dosespaços a serviço da liturgia contribuem para que aIgreja celebre e se manifeste como povo sacerdotal, ministerial,congregado e convocado pelo Senhor Jesus. Abeleza, a dignidade e a simplicidade do espaço devemestar em sintonia com a beleza do Mistério Pascal deCristo.155 É fundamental dar especial atenção à formaçãona área da arte sacra e do espaço litúrgico, tantonos seminários quanto entre os profissionais das artes econstrução civil, para que os espaços correspondam àdimensão simbólica e funcional da liturgia. É urgente,também, nos regionais e nas dioceses a implementaçãodas comissões de espaço litúrgico, compostas, preferencialmente,por especialistas nas diferentes áreas(artistas, arquitetos, engenheiros, liturgistas).78. A inculturação incide sobre a vida comunitária eministerial, sobre a formação e reflexão teológica,e sobre as celebrações litúrgicas. “Os indígenas eafro-americanos são, sobretudo, ‘outros’ diferentesque exigem respeito e reconhecimento.”156 Vivemos155 Cf. Bento XVI. SCa, n. 35.156 DA, n. 89.67hoje “um kairós, tempo para aprofundar o encontroda Igreja com esses setores humanos que reivindicamo reconhecimento pleno de seus direitos individuaise coletivos. Eles devem ser levados em consideraçãona catolicidade com sua cosmovisão, seus valores esuas identidades particulares, para viverem um novoPentecostes eclesial”.157 Na liturgia, portanto, é precisorecuperar as expressões culturais, o ritmo, o cantoe a música, os instrumentos musicais, as vestes, osespaços, os gestos e símbolos das diferentes culturas,sem prejuízo das normas litúrgicas gerais e de acordocom as demais orientações do Magistério da Igreja.Expressões culturais assumidas na liturgia devemapresentar com clareza qual é o acontecimento da féque lhes dá um sentido novo e radical.79. Permanecem como solicitude para a Igreja no Brasil,especialmente a partir da dimensão litúrgica, os seguintesdesafios:a) a promoção de uma liturgia mais popular e inculturada,para que também os pobres e excluídos tenhammais espaço para celebrar, no Mistério Pascal deJesus Cristo, sua vida e sua fé;b) a participação em celebrações ecumênicas, dado ocaráter eclesial da liturgia;c) as celebrações transmitidas pela mídia, de responsabilidadedo bispo local, em seu esforço decriatividade, respeitem as normas litúrgicas;157 DA, n. 91.68d) a ligação da Páscoa de Cristo celebrada na liturgia,com a criação e o cuidado com a conservação danatureza.80. A Pastoral Litúrgica compreende todos os esforços einiciativas para animar a vida litúrgica de uma comunidade,paróquia, diocese, região, levando em conta suarealidade histórica, cultural, social, eclesial, de modoque todos os cristãos possam participar da liturgia deforma ativa, consciente e plena, e colher dela os frutosespirituais. Isso inclui cuidados com a preparação,realização e avaliação das celebrações, com a formaçãodos ministros e do povo e com a organização davida litúrgica nos vários níveis eclesiais. Mais do quenunca, em nossa Igreja no Brasil importa priorizar aorganização e a formação de equipes de liturgia emtodos os níveis, sob a orientação dos bispos, primeirosresponsáveis pela animação litúrgica, e com a participaçãodos presbíteros e agentes de pastoral, de modoa contemplar a celebração, formação, inculturação,articulação, organização, música litúrgica e espaçolitúrgico. Do exercício da colegialidade episcopal e docompromisso com a evangelização do povo brasileiro,nasce a solicitude da organização dos serviços daComissão Episcopal Pastoral para a Liturgia, a fim deanimar e fortalecer a Pastoral Litúrgica nos regionais eincentivar a articulação e o intercâmbio de experiênciase recursos entre eles.69Ministério da caridade81. Se as fontes da vida da Igreja são a Palavra e o Sacramento,o centro da vida cristã158 é a caridade, o amordoação,o amor que vem de Deus mesmo159 e que oapóstolo Paulo aponta como o mais alto dos dons.160“Deus é amor, e quem permanece no amor permaneceem Deus e Deus nele.”161 Nossa resposta é acreditarno amor de Deus. Aqui se encontra o distintivo doscristãos nas palavras do próprio Jesus: “Como euvos amei, assim também vós deveis amar-vos unsaos outros. Nisso conhecerão todos que sois meusdiscípulos: se vos amardes uns aos outros”.162 Aquireside, também, a razão fundamental do crescimentoda Igreja, não por proselitismo, mas por atração, pelotestemunho.163 Podemos ainda também afirmar que“toda a atividade da Igreja é a manifestação de umamor que procura o bem integral do ser humano”,164amor esse que “é o melhor testemunho do Deus emque acreditamos”.165158 Bento XVI. DCE, n. 1.159 Cf. Rm 5,5.160 Cf. 1Cor 12,31.161 1Jo 4,16.162 Cf. Jo 13,34s.163 Cf. DA, n. 159.164 Bento XVI. DCE, n. 19.165 Bento XVI. DCE, n. 31.7082. O amor cristão tem duas faces inseparáveis: faz brotare crescer a comunhão fraterna entre os que acolherama Palavra do Evangelho (a koinonia, a partilha dosbens, a solidariedade) e leva ao serviço dos pobres, aocuidado para com os sofredores, ao socorro de todos osnecessitados, sem discriminação.166 Numa sociedadeque privilegia o lucro e a produtividade como valoressupremos167 e na qual a dignidade da pessoa humananão é valorizada,168 a Igreja deve se fazer presente “nasnovas realidades de exclusão e marginalização em quevivem os grupos mais vulneráveis, onde a vida estámais ameaçada”.169 Daí a necessidade de “ratificar epotencializar a opção preferencial pelos pobres”,170“implícita na fé cristológica naquele Deus que se fezpobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza”171e que deverá “atravessar todas as suas estruturas eprioridades pastorais”,172 manifestando-se “em opçõese gestos concretos”.17383. A globalização fez emergir em nosso país novosrostos pobres, novos excluídos e marginalizados da166 Cf. At 3,1-9; 6,1-6; 9,36-42; 20,33-35 etc.; João Paulo II. NNI, nn. 49-53;DA, n. 161.167 Cf. Bento XVI. DA: Discurso Inaugural, n. 2.168 Cf. DA, n. 387.169 DA, n. 401.170 DA, n. 396.171 Bento XVI. DA: Discurso Inaugural, n. 3.172 DA, n. 396.173 DA, n. 397; Cf. Bento XVI. DCE, nn. 28 e 31.71sociedade: os migrantes; as vítimas da violência; osrefugiados; os seqüestrados; as pessoas portadorasdo vírus HIV; os tóxico-dependentes; os idosos; osmeninos e meninas vítimas da prostituição, da violência,de tráfico de pessoas, de grande número deabortos, do trabalho infantil; as mulheres maltratadas,exploradas sexualmente; as pessoas com necessidadesespeciais; os desempregados; os analfabetos digitais;os encarcerados; os moradores de rua; os indígenas eafro-descendentes; os camponeses sem terra.174 Apesardos enormes recursos econômicos e tecnológicos,persistem a concentração dos bens, a insensibilidadeética e a falta de vontade política para resolver essasituação, pela transformação das próprias estruturassociais e econômicas que reproduzem os processos deexclusão e opressão dos mais fracos. Daí o empenhoda Igreja por uma globalização da solidariedade, dafraternidade.84. Devemos estar atentos, contudo, para não reduzir acaridade ao assistencialismo paternalista. Não somentedevemos partilhar da consciência democrática, queexige o respeito pela dignidade de cada pessoa e apromoção efetiva de seus direitos, mas também verna prática da caridade uma oportunidade de doar edoar-se, de aprender e crescer na troca mútua dos bensmateriais e dons espirituais.174 Cf. DA, n. 402.7285. A caridade cristã deve promover a vida humana emtodas as suas modalidades e defendê-la sempre, baseadano fundamento sólido e inviolável dos direitoshumanos.175 Daí a importância do anúncio de uma antropologiaintegral, de uma visão abrangente da pessoahumana, cujo mistério só se aclara à luz do mistériodo Verbo Encarnado.176 Daí, também, a importância dabioética em nossos dias.177 Do mesmo modo impõe-seo dever de cuidarmos do meio ambiente, tão ameaçadopor interesses econômicos e tecnológicos. A destruiçãodo ecossistema prejudica a todos, sobretudo aosmais pobres, como os indígenas e os camponeses.178Igualmente, brota do amor cristão a defesa das culturasindígenas, de seus territórios e de seus valores,179bem como dos afro-descendentes, com sua memóriacultural, sua identidade étnica e sua luta por uma justacidadania.18086. É importante que a Igreja forme pessoas em níveis dedecisão: empresários, políticos, formadores de opiniãono mundo do trabalho, dirigentes sindicais.181 A opçãopelos pobres exige uma pastoral voltada aos constru-175 Cf. DA, n. 467.176 GS 22.177 Cf. DA, n. 465.178 Cf. DA, n. 473.179 Cf. DA, n. 530.180 Cf. DA, n. 533.181 Cf. DA, n. 492.73tores da sociedade,182 sem esquecer de que os pobres eos marginalizados são também “sujeitos de mudançae de transformação de sua situação”.183 Todos os fiéissão também impulsionados pelo Espírito a participarda vida política, pois a vida cristã não se expressasomente nas virtudes pessoais, mas também nas virtudessociais e políticas.184 Os leigos, devidamenteformados, devem estar presentes na vida pública,185atuando como verdadeiros sujeitos eclesiais e competentesinterlocutores entre a Igreja e a sociedade.186Por outro lado, a participação política, motivada pelafé, pode assumir diferentes formas, desde o interessepelos problemas sociais, participação em conselhos dedireito, até a filiação a partidos e a aceitação de cargoseletivos. Muitos em nossa sociedade, especialmente osmais pobres, sofrem devido aos problemas endêmicosde corrupção nessa área.18787. A vivência da escuta da Palavra, da comunhão fraternae do compromisso com a justiça alimenta e expressa aespiritualidade batismal, que configura o cristão comCristo, o qual por amor entrega sua vida para que todostenham Vida.182 Cf. DA, n. 501.183 DA, n. 394.184 Cf. Bento XVI. DA: Discurso Inaugural, n. 3.185 Cf. DA, n. 508.186 Cf. DA, n. 497. Quanto à participação dos clérigos ou religiosos(as) navida político-partidária, atenha-se às normas do Direito Canônico, 285, §3; 287, § 2.187 Cf. DA, n. 507.74
67. A liturgia ocupa, na ação evangelizadora da Igreja, um lugar central.
Conforme o Concílio Vaticano II, ela é “ocume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmotempo, a fonte de onde emana toda a sua força”.137Nela, o discípulo realiza o mais íntimo encontro como seu Senhor e, dela, recebe a motivação e a forçamáximas para a sua missão na Igreja e no mundo.68. Em sentido estrito, a liturgia é a celebração do MistérioPascal da morte e ressurreição de Cristo – e de toda ahistória da salvação. Nessa celebração, os que sofrem emorrem, unidos a Cristo e a seu Corpo, que é a Igreja,participam da vitória pascal sobre o mal e as forçasda morte. Ela é ação ritual, que se realiza em sinaise palavras, é santificação do homem e glorificaçãode Deus. A liturgia é celebrada pela comunidade dosbatizados – ministros ordenados e leigos – reunida emtorno de seu sumo sacerdote Jesus Cristo. A celebraçãolitúrgica implica necessariamente um compromissocom a transformação da realidade em vista do crescimentodo Reino de Deus.69. Por ser a comunidade reunida no Espírito Santo, sujeitoda celebração, todos os seus membros têm o direitoe o dever de participar da ação litúrgica, externa einternamente, de maneira ativa, consciente, plena e137 SC, n. 10.61frutuosa,138 para assim levar a obra salvífica do seu Senhora efeito em si, na Igreja e no mundo. Os ministrosordenados e leigos têm uma função especial de serviçona assembléia litúrgica, e toda ela, como comunidadeeclesial de discípulos, está como missionária a serviçodo mundo.70. Para que seja possível tal liturgia autêntica, seus agentes,isto é, todos os batizados, de modo especial osministros ordenados e leigos, devem ser formados “naestrada de uma catequese de caráter mistagógico, queleve os fiéis a penetrarem cada vez mais nos mistériosque são celebrados”.139 Isso supõe que cada celebração seja devidamente preparada e avaliada.71. Os sacramentos são sinais da comunhão com Deus, em Cristo, pelo Espírito Santo, que marcam com sua graçamomentos fortes da vida. Pelo Batismo, mergulhandonas águas da morte e da ressurreição,140 a Igreja acolheas pessoas que, na fé, aderem a Cristo e as inserena comunidade cristã. Pela Confirmação, o cristão éimbuído do Espírito do Senhor e seu santo modo deoperar, para viver de forma madura o compromissode discípulo missionário. Pela Eucaristia, sacrifício ebanquete de ação de graças, a Igreja celebra o memorialda morte e ressurreição de Cristo, perfeita ofertaao Pai, alimentando-se do Corpo entregue e do Sangue138 Cf. SC, n. 14.139 Bento XVI. SCa, n. 64.140 Cf. Rm 6,4-11.62derramado do Senhor, em vista do fortalecimento dacomunhão e da missão de todos os seus membros.Pela Penitência-Reconciliação, a Igreja celebra oamor misericordioso do Pai que acolhe e perdoa ospecadores que buscam a conversão e fazem penitência.Pela Unção dos Enfermos, a Igreja celebra a Páscoade Jesus que se une ao sofrimento dos doentes e idosos,oferecendo-lhes a graça do conforto e da curae o perdão. Pelo sacramento da Ordem, o Espíritoconstitui os ministérios ordenados: bispos, presbíterose diáconos; estão a serviço do sacerdócio comum dosfiéis, instituído em favor dos homens e da comunidadeda Igreja.141 Pelo sacramento do Matrimônio, a Igrejacelebra “o amor de Deus pela humanidade e a entregade Cristo por sua esposa, a Igreja”.14272. O domingo é a celebração do Mistério Pascal. É, pois,o principal dia de festa. É o dia em que a família deDeus se reúne para “escutar a Palavra e repartir o Pãoconsagrado, recordar a ressurreição do Senhor na esperançade ver o dia sem ocaso, quando a humanidadeinteira repousar diante do Pai”.143 Como nos lembraJoão Paulo II, é o dia do Senhor, dia de Cristo, dia daIgreja, dia do Homem e dia dos Dias. Por causa disso,é importante promover a pastoral do domingo144141 Cf. CIC, nn. 1539-1553; DA, nn. 186-208.142 DA, n. 433.143 Missal Romano: Prefácio dos Domingos do Tempo Comum, IX.144 Cf. João Paulo II. DD.63e dar a ela “prioridade nos programas pastorais”.145Em muitas de nossas comunidades, no meio rurale na periferia das metrópoles, onde não é possível acelebração regular e assídua da Eucaristia dominical,devemos valorizar a celebração da Palavra, prepararos ministros da Palavra e oferecer-lhes subsídiosde qualidade, pois essas celebrações são o alimentoordinário da vida cristã e missionária de um grandenúmero de nossas comunidades146 que se reúnem para aCelebração Dominical da Palavra, “a qual faz presenteo Mistério Pascal no amor que congrega (1Jo 3,14),na Palavra acolhida (Jo 5,24) e na oração comunitária(Mt 18,20)”.147 Nas comunidades, onde for possível,distribua-se a Comunhão Eucarística, na celebraçãoda Palavra, especialmente aos domingos, segundo asnormas em vigor. Nossas dioceses ou prelazias farãode tudo para garantir, inclusive com a ajuda de padresde outras dioceses, o ritmo seguro das celebraçõeseucarísticas para todas as comunidades, sinal essencialde sua identidade católica.73. O ano litúrgico “revela todo o mistério de Cristo nodecorrer do ano, desde a encarnação e nascimento atéà Ascensão, ao Pentecostes e à expectativa da feliz esperançada vinda do Senhor”.148 Ele, assim, nos propõe145 DA, n. 252.146 Estima-se em 70% o número de comunidades que celebram a Palavra deDeus.147 DA, n. 253.148 SC 102.64um caminho espiritual, ou seja, a vivência da graçaprópria de cada aspecto do mistério de Cristo presentee operante nas diversas festas e nos diversos temposlitúrgicos.149 Em síntese, através do ano litúrgico, osfiéis fazem a experiência de se configurarem ao seuSenhor e dele aprenderem a viver seus sentimentos.150O ano litúrgico não apenas recorda as ações de JesusCristo, nem somente renova a lembrança de açõespassadas, mas celebra com força sacramental e especialeficácia, alimentando assim a vida cristã. Por isso, oano litúrgico, como itinerário sacramental, torna-se umcaminho pedagógico-espiritual nos ritmos do tempo.Ao longo do ano, sejam assumidas as festas de devoçãopopular, visto que, nas expressões religiosas populares,há uma modalidade profundamente inculturadade manifestar a fé,151 imprescindível ponto de partidapara uma fé madura e fecunda,152 “precioso tesouro daIgreja Católica na América Latina”.15374. Na piedade popular, lugar de encontro com JesusCristo, o povo também encontra maneiras simplesde expressar e viver sua fé e o compromisso missionário.154 A digna celebração dos sacramentais, comobênçãos e exéquias, vem ao encontro da alma do povoe oportuniza a celebração do Mistério Pascal.149 Cf. Paulo VI. NUALC, n. 1.150 Cf. Fl 2,5.151 Cf. DA, n. 258.152 Cf. DA, n. 262.153 Bento XVI. DA: Discurso Inaugural, n. 1.154 Cf. DA, n. 261.6575. Como oração do Povo de Deus, verdadeira ação litúrgica,a Liturgia das Horas (Ofício Divino) é excelenteescola e referência fundamental para nossa oraçãoindividual. É uma oração não apenas dos ministrosordenados e dos religiosos, mas também de todos osfiéis leigos, que são convidados a celebrá-la, individualou comunitariamente, em especial os jovens dos nossosgrupos juvenis. Incentivem-se igualmente outrasformas de oração comunitária da Igreja, por exemplo,Ofícios Breves adaptados, Celebrações da Palavra deDeus, Horas Santas, Ladainhas, Ângelus, Via-Sacrae Rosário.76. A música litúrgica é parte integrante e significativa daação ritual. Ela tem a especial capacidade de atingir oscorações e, como rito, grande eficácia pedagógica paralevá-los a penetrar no mistério celebrado. Para isso, elaprecisa estar intimamente vinculada ao rito, ou seja, aomomento celebrativo e ao tempo litúrgico. Vale dizer,sua função ritual deve estar organicamente inseridano contexto da grande tradição bíblico-litúrgica daIgreja, bem como da vida e da cultura da comunidadecelebrante. É urgente atentar para a qualidade de nossocantar litúrgico, para a importância dos vários ministérioslitúrgico-musicais e, mais que urgente, para aformação e capacitação de todos, especialmente daspessoas e equipes que os exercem. Uma prioridadeestratégica, com certeza, são os centros de formação,tanto das congregações e ordens religiosas, quantodo clero diocesano. É de suma importância aprovei66tar todas as instâncias e oportunidades de formaçãooferecidas, em todo o país, por escolas de liturgia,faculdades, dioceses e regionais da CNBB.77. O espaço litúrgico deve ser funcional, favorecer o encontroentre as pessoas e o encontro com Deus, bemcomo sinal sensível do mistério que ali se celebra. Aarte, a arquitetura, a disposição e a ornamentação dosespaços a serviço da liturgia contribuem para que aIgreja celebre e se manifeste como povo sacerdotal, ministerial,congregado e convocado pelo Senhor Jesus. Abeleza, a dignidade e a simplicidade do espaço devemestar em sintonia com a beleza do Mistério Pascal deCristo.155 É fundamental dar especial atenção à formaçãona área da arte sacra e do espaço litúrgico, tantonos seminários quanto entre os profissionais das artes econstrução civil, para que os espaços correspondam àdimensão simbólica e funcional da liturgia. É urgente,também, nos regionais e nas dioceses a implementaçãodas comissões de espaço litúrgico, compostas, preferencialmente,por especialistas nas diferentes áreas(artistas, arquitetos, engenheiros, liturgistas).78. A inculturação incide sobre a vida comunitária eministerial, sobre a formação e reflexão teológica,e sobre as celebrações litúrgicas. “Os indígenas eafro-americanos são, sobretudo, ‘outros’ diferentesque exigem respeito e reconhecimento.”156 Vivemos155 Cf. Bento XVI. SCa, n. 35.156 DA, n. 89.67hoje “um kairós, tempo para aprofundar o encontroda Igreja com esses setores humanos que reivindicamo reconhecimento pleno de seus direitos individuaise coletivos. Eles devem ser levados em consideraçãona catolicidade com sua cosmovisão, seus valores esuas identidades particulares, para viverem um novoPentecostes eclesial”.157 Na liturgia, portanto, é precisorecuperar as expressões culturais, o ritmo, o cantoe a música, os instrumentos musicais, as vestes, osespaços, os gestos e símbolos das diferentes culturas,sem prejuízo das normas litúrgicas gerais e de acordocom as demais orientações do Magistério da Igreja.Expressões culturais assumidas na liturgia devemapresentar com clareza qual é o acontecimento da féque lhes dá um sentido novo e radical.79. Permanecem como solicitude para a Igreja no Brasil,especialmente a partir da dimensão litúrgica, os seguintesdesafios:a) a promoção de uma liturgia mais popular e inculturada,para que também os pobres e excluídos tenhammais espaço para celebrar, no Mistério Pascal deJesus Cristo, sua vida e sua fé;b) a participação em celebrações ecumênicas, dado ocaráter eclesial da liturgia;c) as celebrações transmitidas pela mídia, de responsabilidadedo bispo local, em seu esforço decriatividade, respeitem as normas litúrgicas;157 DA, n. 91.68d) a ligação da Páscoa de Cristo celebrada na liturgia,com a criação e o cuidado com a conservação danatureza.80. A Pastoral Litúrgica compreende todos os esforços einiciativas para animar a vida litúrgica de uma comunidade,paróquia, diocese, região, levando em conta suarealidade histórica, cultural, social, eclesial, de modoque todos os cristãos possam participar da liturgia deforma ativa, consciente e plena, e colher dela os frutosespirituais. Isso inclui cuidados com a preparação,realização e avaliação das celebrações, com a formaçãodos ministros e do povo e com a organização davida litúrgica nos vários níveis eclesiais. Mais do quenunca, em nossa Igreja no Brasil importa priorizar aorganização e a formação de equipes de liturgia emtodos os níveis, sob a orientação dos bispos, primeirosresponsáveis pela animação litúrgica, e com a participaçãodos presbíteros e agentes de pastoral, de modoa contemplar a celebração, formação, inculturação,articulação, organização, música litúrgica e espaçolitúrgico. Do exercício da colegialidade episcopal e docompromisso com a evangelização do povo brasileiro,nasce a solicitude da organização dos serviços daComissão Episcopal Pastoral para a Liturgia, a fim deanimar e fortalecer a Pastoral Litúrgica nos regionais eincentivar a articulação e o intercâmbio de experiênciase recursos entre eles.69Ministério da caridade81. Se as fontes da vida da Igreja são a Palavra e o Sacramento,o centro da vida cristã158 é a caridade, o amordoação,o amor que vem de Deus mesmo159 e que oapóstolo Paulo aponta como o mais alto dos dons.160“Deus é amor, e quem permanece no amor permaneceem Deus e Deus nele.”161 Nossa resposta é acreditarno amor de Deus. Aqui se encontra o distintivo doscristãos nas palavras do próprio Jesus: “Como euvos amei, assim também vós deveis amar-vos unsaos outros. Nisso conhecerão todos que sois meusdiscípulos: se vos amardes uns aos outros”.162 Aquireside, também, a razão fundamental do crescimentoda Igreja, não por proselitismo, mas por atração, pelotestemunho.163 Podemos ainda também afirmar que“toda a atividade da Igreja é a manifestação de umamor que procura o bem integral do ser humano”,164amor esse que “é o melhor testemunho do Deus emque acreditamos”.165158 Bento XVI. DCE, n. 1.159 Cf. Rm 5,5.160 Cf. 1Cor 12,31.161 1Jo 4,16.162 Cf. Jo 13,34s.163 Cf. DA, n. 159.164 Bento XVI. DCE, n. 19.165 Bento XVI. DCE, n. 31.7082. O amor cristão tem duas faces inseparáveis: faz brotare crescer a comunhão fraterna entre os que acolherama Palavra do Evangelho (a koinonia, a partilha dosbens, a solidariedade) e leva ao serviço dos pobres, aocuidado para com os sofredores, ao socorro de todos osnecessitados, sem discriminação.166 Numa sociedadeque privilegia o lucro e a produtividade como valoressupremos167 e na qual a dignidade da pessoa humananão é valorizada,168 a Igreja deve se fazer presente “nasnovas realidades de exclusão e marginalização em quevivem os grupos mais vulneráveis, onde a vida estámais ameaçada”.169 Daí a necessidade de “ratificar epotencializar a opção preferencial pelos pobres”,170“implícita na fé cristológica naquele Deus que se fezpobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza”171e que deverá “atravessar todas as suas estruturas eprioridades pastorais”,172 manifestando-se “em opçõese gestos concretos”.17383. A globalização fez emergir em nosso país novosrostos pobres, novos excluídos e marginalizados da166 Cf. At 3,1-9; 6,1-6; 9,36-42; 20,33-35 etc.; João Paulo II. NNI, nn. 49-53;DA, n. 161.167 Cf. Bento XVI. DA: Discurso Inaugural, n. 2.168 Cf. DA, n. 387.169 DA, n. 401.170 DA, n. 396.171 Bento XVI. DA: Discurso Inaugural, n. 3.172 DA, n. 396.173 DA, n. 397; Cf. Bento XVI. DCE, nn. 28 e 31.71sociedade: os migrantes; as vítimas da violência; osrefugiados; os seqüestrados; as pessoas portadorasdo vírus HIV; os tóxico-dependentes; os idosos; osmeninos e meninas vítimas da prostituição, da violência,de tráfico de pessoas, de grande número deabortos, do trabalho infantil; as mulheres maltratadas,exploradas sexualmente; as pessoas com necessidadesespeciais; os desempregados; os analfabetos digitais;os encarcerados; os moradores de rua; os indígenas eafro-descendentes; os camponeses sem terra.174 Apesardos enormes recursos econômicos e tecnológicos,persistem a concentração dos bens, a insensibilidadeética e a falta de vontade política para resolver essasituação, pela transformação das próprias estruturassociais e econômicas que reproduzem os processos deexclusão e opressão dos mais fracos. Daí o empenhoda Igreja por uma globalização da solidariedade, dafraternidade.84. Devemos estar atentos, contudo, para não reduzir acaridade ao assistencialismo paternalista. Não somentedevemos partilhar da consciência democrática, queexige o respeito pela dignidade de cada pessoa e apromoção efetiva de seus direitos, mas também verna prática da caridade uma oportunidade de doar edoar-se, de aprender e crescer na troca mútua dos bensmateriais e dons espirituais.174 Cf. DA, n. 402.7285. A caridade cristã deve promover a vida humana emtodas as suas modalidades e defendê-la sempre, baseadano fundamento sólido e inviolável dos direitoshumanos.175 Daí a importância do anúncio de uma antropologiaintegral, de uma visão abrangente da pessoahumana, cujo mistério só se aclara à luz do mistériodo Verbo Encarnado.176 Daí, também, a importância dabioética em nossos dias.177 Do mesmo modo impõe-seo dever de cuidarmos do meio ambiente, tão ameaçadopor interesses econômicos e tecnológicos. A destruiçãodo ecossistema prejudica a todos, sobretudo aosmais pobres, como os indígenas e os camponeses.178Igualmente, brota do amor cristão a defesa das culturasindígenas, de seus territórios e de seus valores,179bem como dos afro-descendentes, com sua memóriacultural, sua identidade étnica e sua luta por uma justacidadania.18086. É importante que a Igreja forme pessoas em níveis dedecisão: empresários, políticos, formadores de opiniãono mundo do trabalho, dirigentes sindicais.181 A opçãopelos pobres exige uma pastoral voltada aos constru-175 Cf. DA, n. 467.176 GS 22.177 Cf. DA, n. 465.178 Cf. DA, n. 473.179 Cf. DA, n. 530.180 Cf. DA, n. 533.181 Cf. DA, n. 492.73tores da sociedade,182 sem esquecer de que os pobres eos marginalizados são também “sujeitos de mudançae de transformação de sua situação”.183 Todos os fiéissão também impulsionados pelo Espírito a participarda vida política, pois a vida cristã não se expressasomente nas virtudes pessoais, mas também nas virtudessociais e políticas.184 Os leigos, devidamenteformados, devem estar presentes na vida pública,185atuando como verdadeiros sujeitos eclesiais e competentesinterlocutores entre a Igreja e a sociedade.186Por outro lado, a participação política, motivada pelafé, pode assumir diferentes formas, desde o interessepelos problemas sociais, participação em conselhos dedireito, até a filiação a partidos e a aceitação de cargoseletivos. Muitos em nossa sociedade, especialmente osmais pobres, sofrem devido aos problemas endêmicosde corrupção nessa área.18787. A vivência da escuta da Palavra, da comunhão fraternae do compromisso com a justiça alimenta e expressa aespiritualidade batismal, que configura o cristão comCristo, o qual por amor entrega sua vida para que todostenham Vida.182 Cf. DA, n. 501.183 DA, n. 394.184 Cf. Bento XVI. DA: Discurso Inaugural, n. 3.185 Cf. DA, n. 508.186 Cf. DA, n. 497. Quanto à participação dos clérigos ou religiosos(as) navida político-partidária, atenha-se às normas do Direito Canônico, 285, §3; 287, § 2.187 Cf. DA, n. 507.74
Capítulo II Discípulos missionáriosnuma
Igreja em estadopermanente de missão47. O projeto salvífico de Deus se realiza na humanidadeatravés de um povo, o Povo de Deus, com a missãode ser luz para as nações. Também a Igreja Primitivase entendeu como Novo Povo de Deus,57 que deverialevar a salvação de Jesus Cristo através dos séculospara todos os homens e mulheres. Vivendo e proclamandoos valores do Reino de Deus, a Igreja é, assim,o “sacramento universal da salvação”.58A comunidade missionária48. Ao acolher a pessoa de Jesus Cristo, pela fé, o cristãose une a ele e entra em comunhão com o Pai59 e o EspíritoSanto. A comunhão com a Santíssima Trindadeé o fundamento da comunhão de todos na Igreja, “sacramentoou sinal e instrumento da íntima união comDeus”60 e da missão no mundo. Portanto, “a vocação57 Cf. 1Pd 2,9s.58 LG, n. 48.59 Cf. 1Jo 1,3.60 LG, n. 48.44ao discipulado missionário é con-vocação à comunhãoem sua Igreja. Não há discipulado sem comunhão”61e missão. Nossa fé é teologal em seu objeto. Ela seorienta ao Deus da Vida: Pai, Filho e Espírito Santo.É eclesial em sua realização histórica. Sempre cremospela mediação da Igreja. Nela e por ela o discípulo setorna sujeito do ato de fé.49. Como membros da Igreja, somos chamados a vivere a transmitir a comunhão com a Trindade, antecipandoa comunhão perfeita e definitiva com Deus ecom as pessoas,62 convidando outros a participaremdessa comunhão.63 De fato, a Igreja evangeliza como“comunidade de amor” 64que atrai à medida que seusmembros vivem o amor fraterno65 e interpelam assimos demais a participar da “aventura da fé”.66 Então elapoderá ser “reconhecida como seguidora de Cristo eservidora da humanidade”.67 Desse modo, “a comunhãoe a missão estão profundamente unidas entre si[…]. A comunhão é missionária e a missão é para acomunhão”.68 A Igreja é chamada a representar demaneira pública a vontade de Deus.61 DA, n. 156.62 Cf. DA, n. 160.63 Cf. DA, n. 157.64 Bento XVI. DCE, n. 19.65 Cf. Rm 12,4; Jo 13,34.66 DA, n. 159.67 DA, n. 161.68 João Paulo II. ChL, n. 32.4550. Nutrida pela Palavra e pela Eucaristia, a Igreja é a“casa e escola de comunhão”,69 “onde os discípuloscompartilham a mesma fé, esperança e amor a serviçoda missão evangelizadora”.70 Ela constitui umaunidade orgânica formada por uma diversidade decarismas, ministérios e serviços, todos eles colaborandopara o único Corpo de Cristo. Cada batizadoé portador de dons que deverão ser desenvolvidosem comunhão com os demais em vista da irradiaçãomissionária da comunidade eclesial.71 Nesse sentido,todos os organismos eclesiais devem “estar animadospor uma espiritualidade de comunhão missionária”,72sem a qual os instrumentos externos da comunhãopouco ajudariam.As exigências e os âmbitos da evangelização51. As atuais Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadoracontinuam ressaltando o serviço, o diálogo, o anúncioe o testemunho de comunhão como quatro exigênciasintrínsecas da evangelização: O evangelizador, tendopresente o contexto em que se encontra, deve mostrarque sua mensagem está a serviço da vida, sobretudonum tempo em que ela se encontra sujeita às maisdiversas ameaças, que produzem situações desuma-69 João Paulo II. NMI, n. 43.70 DA, n. 158.71 Cf. DA, n. 162.72 Cf. DA, n. 203.46nas incompatíveis com o Reino de Vida trazido porCristo.73• Quem evangeliza se põe a serviço de seu “dinamismode libertação integral, de humanização, dereconciliação e de inserção social”.74 Esse serviçopressupõe o respeito aos outros, o conhecimento deconcepções de vida, de seus problemas existenciais,de seus anseios e frustrações, de suas alegrias etristezas.75• Isso exige escuta e diálogo sobre o sentido daexistência, fé em Deus e oração, com a consciênciade que nas demais convicções religiosas estãopresentes as “sementes do Verbo”.• Nesse diálogo será possível esclarecer as razõesda nossa esperança e chegar ao anúncio do Evangelho,Palavra viva de Jesus. O centro e o ápice dodinamismo missionário da comunidade eclesial háde ser sempre “uma proclamação clara de que, emJesus Cristo, Filho de Deus feito homem, morto eressuscitado, a salvação é oferecida a todos os sereshumanos como dom da graça e da misericórdia domesmo Deus”.76• Da fé em Jesus Cristo, suscitada, acolhida e partilhada,nasce a comunidade dos discípulos missionários,73 Cf. DA, n. 358.74 DA, n. 359.75 GS, n. 1.76 Paulo VI. EN, n. 27.47chamada a dar o testemunho da comunhão. Unidapela fé compartilhada, a comunidade cristã é chamadaa viver e testemunhar o amor que une todosos que crêem em Jesus Cristo na Igreja, a famíliade Deus, para o serviço ao mundo.7752. A ordem serviço-diálogo-anúncio-comunhão expressauma seqüência pedagógica das exigências – todaselas essenciais – da evangelização. Do ponto de vistadas finalidades ou dos valores, porém, o anúncio doEvangelho deve ter primado ou prioridade permanente.É para ele que se volta a missão de evangelizar: “Aevangelização conterá sempre, como base, centro e,ao mesmo tempo, vértice de seu dinamismo, umaproclamação clara de que em Jesus Cristo a salvaçãoé oferecida a cada homem, como dom de graça emisericórdia do próprio Deus”.78 Urge, pois, “umaevangelização muito mais missionária, em diálogo comtodos os cristãos e a serviço de todos os homens”.7953. Na seqüência anterior se explicitam as dimensõesconstitutivas da evangelização. Quando a proclamaçãodo Evangelho atinge o coração da pessoa, exigindodela uma resposta de fé, descreve-se melhor o caminhopercorrido pelo sujeito da fé. As etapas dessa caminhada,descritas pelo Documento de Aparecida, são: encontrovivo com Jesus Cristo, conversão, discipulado,77 Cf. Jo 17,21.78 João Paulo II. RM, n. 44; Paulo VI. EN, n. 27.79 DA, n. 13.48comunhão e missão. Essencialmente essas etapas doDocumento de Aparecida se articulam perfeitamentecom as quatro exigências de nossa ação evangelizadora.De fato, a conversão nasce do anúncio e por ele sesustenta; por sua vez, o discipulado, fiel ao chamadoamoroso e íntimo do Mestre, deve traduzir-se sempreem serviço, humanizador e libertador, à vida; a comunhãodeve traduzir-se em testemunho de comunhãodentro da comunidade cristã; bem como em diálogodos que buscam o Reino de coração sincero. Dessemodo, a missão tão preconizada pelo Documentode Aparecida engloba todas as quatro exigências daevangelização das atuais Diretrizes.54. Nesse processo queremos explicitar a importância doanúncio e testemunho. São duas modalidades, complementarese conexas, da missão cristã. O anúncioindica mais propriamente a “proclamação explícita”da mensagem do Evangelho. O anúncio querigmáticoé não somente o início, mas também “o fio condutorde um processo que culmina na maturidade do discípulode Jesus Cristo”.80 É o anúncio que proporcionaum autêntico encontro com Jesus Cristo,81 que leva àconversão de vida, ao discipulado, à comunhão eclesiale à missão.82 O testemunho pode ser dado pelapalavra, mas é principalmente uma atitude de vida,muitas vezes silenciosa. O mundo de hoje “escuta com80 DA, n. 278.81 Cf. DA, n. 289.82 Cf. DA, n. 278.49melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres,ou então, se escuta os mestres, é porque eles sãotestemunhas”.83 O testemunho pode assumir diversosaspectos. A atitude de solidariedade ou de serviço, aabertura de diálogo, uma declaração franca da própriafé, o exemplo de uma vida fraterna e inspirada peloamor, o posicionamento a favor dos mais fracos, umsério compromisso pela justiça: tudo isso é testemunhoque pode chegar à máxima expressão na doação daprópria vida.84 Expressão privilegiada do testemunhoé a comunhão eclesial, condição para que o mundocreia. Fazer da Igreja a casa e a escola de comunhão:eis o grande desafio que nos espera.55. Desse modo, a evangelização exige muita atenção àsituação em que vivemos, bem como sincera aberturade espírito e solidariedade diante das aspirações,angústias e interrogações da nossa época.85 Maisconcretamente, nos deparamos com sérios desafios deordem cultural e religiosa, social, política, econômica,ecológica, com sérias conseqüências para o futuro denossa população.86 Além disso, uma evangelizaçãoinsuficiente em nosso passado eclesial, e ainda hoje,dá origem a uma multidão de batizados e crismadosnão praticantes, que se encontram afastados de umavivência cristã e eclesial e que necessitam de adequada83 Paulo VI. EN, n. 41.84 Cf. DA, n. 275.85 Cf. GS, n. 1.86 Cf. DA, n. 33-97.50pastoral evangelizadora por parte da Igreja.87 Já nãobasta uma pastoral de mera conservação; faz-se necessárioresponder às carências que explicam a saída demuitos católicos da Igreja, e que concernem à experiênciareligiosa, à vivência comunitária, à formaçãobíblico-doutrinal e ao compromisso missionário detoda a comunidade.88 Para alcançar esse objetivo, énecessária uma “permanente conversão pastoral” porparte dos bispos, presbíteros, diáconos permanentes,consagrados, leigos e leigas,89 para que não nos instalemos“na comodidade, no estancamento e na indiferença,à margem do sofrimento dos pobres”.9056. As quatro exigências intrínsecas da evangelização seoperacionalizam pastoralmente pela presença da Igrejanos três âmbitos de ação, que constituem tanto o espaçocomo as realidades onde o Evangelho precisa ser encarnado:pessoa, comunidade e sociedade. Não se tratade realidades estanques e isoladas, mas interligadas ecomplementares. Pessoas evangelizadas, ao se fazeremdom, transbordam na comunidade, que, por sua vez,enquanto comunidade eclesial, existe para o serviço deDeus na sociedade. Em relação a esses três âmbitos,posteriormente serão indicadas algumas pistas de açãopara a missão evangelizadora no Brasil.87 Cf. DA, n. 286.88 Cf. DA, n. 226.89 Cf. DA, n. 366.90 DA, n. 362.51A vocação e missão dos discípulos missionários57. O discípulo é alguém chamado por Jesus Cristo paracom ele conviver, participar de sua Vida, unir-se àsua Pessoa91 e aderir à sua missão, colaborando comela.92 Entrega, assim, sua liberdade a Jesus, Caminho,Verdade e Vida;93 assume “o estilo de vida do próprioJesus”, a saber, um amor incondicional, solidário,acolhedor até a doação da própria vida;94 e compartilhado destino do Mestre de Nazaré.95 Como não podemosseparar Jesus de sua missão salvífica, também nãopodemos conceber um cristão que não colabora noanúncio e na realização do Reino de Deus na históriahumana. Essa missão é, por conseqüência, parte integranteda identidade cristã. Por isso, “todo discípuloé missionário”.96 Em resumo: “Discipulado e missãosão como as duas faces da mesma moeda”.9758. Esta vocação missionária, inerente à fé cristã, consisteprimeiramente em dar testemunho e anunciar JesusCristo vivo, experimentado pelo fiel num encontropessoal, que significou plenitude e alegria.98 Esse91 Cf. Mc 1,17; 2,14.92 Cf. DA, n. 131.93 Cf. Jo 14,6; DA, n. 136.94 Cf. DA, n. 139.95 Cf. DA, n. 140.96 DA, n. 144.97 DA, n. 146.98 Cf. DA, n. 145.52encontro pessoal com Jesus Cristo não só traz a felicidadeao fiel, mas ainda o impulsiona a proclamare promover o Reino da Vida,99 que Deus quer para ahumanidade e que transparece nas palavras e nas açõesde Jesus Cristo.100 Esse Reino da Vida diz respeitoà totalidade da existência humana, incluindo “suadimensão pessoal, familiar, social e cultural”.101 Daídecorre que “a santidade não é fuga para o intimismoou para o individualismo religioso, […] e muito menosfuga da realidade para um mundo exclusivamenteespiritual”.10259. A Vida do Pai, que nos chega em Cristo e por ele,é “incompatível com situações desumanas”, oucom “as graves desigualdades sociais e as enormesdiferenças no acesso aos bens”.103 Mais: a salvaçãode Jesus Cristo diz respeito não só aos indivíduos.Ela deve atingir também “as relações sociais entreos seres humanos”.104 Por isso, o anúncio de JesusCristo vivo, a evangelização, “envolve a promoçãohumana e a autêntica libertação”.105 Nessa perspectiva,“a doutrina, as normas, as orientações éticas etoda a atividade missionária da Igreja devem deixar99 Cf. DA, n. 29.100 Cf. DA, n. 353.101 DA, n. 356.102 DA, n. 148.103 DA, n. 358.104 DA, n. 359.105 DA, n. 399.53transparecer essa atrativa oferta de vida mais digna,em Cristo, para cada homem e para cada mulher”.106Assim compreende-se melhor que “o encontro comJesus Cristo nos pobres é uma dimensão constitutivade nossa fé em Jesus Cristo”.107 Desse modo, dá-sesentido pleno a toda ação social da Igreja através dosdiscípulos missionários, que participam responsavelmentena construção de uma sociedade mais justa, nareabilitação da ética e da política, no trabalho por umacultura da co-responsabilidade.108A missão segundo o tríplice múnus60. A Igreja, por fidelidade a Cristo e à missão dele recebida,tem a estrita responsabilidade de oferecer, emcada época, o acesso à Palavra de Deus, à celebraçãoda Eucaristia e aos demais sacramentos, e de cuidarda caridade fraterna e do serviço dos pobres. Umaantiga tradição, que se inspira na Palavra de Deus eque foi diversamente retomada na história da Igreja,descreve essa responsabilidade segundo um tríplicemúnus: ministério da Palavra, ministério da liturgia eministério da caridade.106 DA, n. 361.107 DA, n. 257.108 Cf. DA, n. 406.54Ministério da Palavra61. A proclamação da Palavra de Deus pela Igreja édecisiva para a fé do cristão, já que ela possibilita oacolhimento livre do anúncio salvífico da pessoa deCristo, acolhimento esse possibilitado pela atuaçãodo Espírito Santo.109 “Não se começa a ser cristão poruma decisão ética ou uma grande idéia, mas atravésdo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa,que dá um novo horizonte à vida e, com isso,uma orientação decisiva.”110 É através da pregação doquerigma que acontece um autêntico encontro comJesus Cristo; por isso ele deve ser uma oferta imprescindívela todos.111 “O poder do Espírito e da Palavracontagia as pessoas e as leva a escutar a Jesus Cristo,a crer nele como seu Salvador, a reconhecê-lo comoquem dá o pleno significado a suas vidas e a seguirseus passos.”112 Sabemos através da tradição da Igrejaque a formação do cristão acontece sempre a partir deuma experiência salvífica com Jesus Cristo, anunciadoe testemunhado por outros cristãos, a qual se pode darem qualquer contexto vital.113109 Cf. 1Cor 12,3.110 Bento XVI. DCE, n. 1.111 Cf. DA, n. 226a.112 DA, n. 279.113 Cf. DA, n. 290.5562. O anúncio e a acolhida da Palavra são, portanto, fundamentaispara a vida e a missão da Igreja114 e ocupamlugar central na liturgia. Cristo “está presente em suaPalavra, pois é ele quem fala quando se lêem as SagradasEscrituras”.115 Assim, a proclamação da Palavra naliturgia torna-se para os fiéis a primeira e fundamentalescola da fé. Por isso, é essencial que pastores e fiéisse empenhem para que a Palavra seja claramente anunciadanas celebrações ao longo do ano litúrgico, sejacomentada e refletida com homilias cuidadosamentepreparadas, e encarnada na vida.63. Faz-se necessário, pois, uma pastoral bíblica entendidacomo “animação bíblica da pastoral, que sejaescola de interpretação ou conhecimento da Palavra,de comunhão com Jesus ou oração com a Palavra, ede evangelização inculturada ou de proclamação daPalavra”.116 “Entre as muitas formas de se aproximarda Sagrada Escritura, existe uma privilegiada, à qualsomos todos convidados: a lectio divina ou o exercíciode leitura orante da Sagrada Escritura. Com seus quatromomentos (leitura, meditação, oração e contemplação),favorece o encontro pessoal com Jesus Cristo.”117Sejam, portanto, incentivadas e reforçadas a prática daleitura pessoal e orante da Bíblia, conforme as orientaçõesdo Concílio Vaticano II e, de modo especial, a114 Cf. Bento XVI, DA: Discurso Inaugural, n. 3.115 SC, n. 7.116 DA, n. 248.117 DA, n. 249.56prática dos círculos bíblicos ou das reuniões de grupo,com a partilha da vivência da Palavra para a edificaçãomútua, de modo que a Palavra de Deus iluminea realidade vivida pelos participantes, animando-ose despertando-os para o compromisso evangélico aserviço do Reino de Deus. “A paróquia precisa ser olugar onde se assegure a iniciação cristã, e terá comotarefas irrenunciáveis: iniciar na vida cristã os adultosbatizados e não suficientemente evangelizados; educarna fé as crianças batizadas em um processo que asleve a completar sua iniciação cristã; iniciar os nãobatizadosque, havendo escutado o querigma, queremabraçar a fé.”11864. O ministério da Palavra exige o ministério da catequesea todos, porque “fortalece a conversão inicial e permiteque os discípulos missionários possam perseverar navida cristã e na missão em meio ao mundo que osdesafia”.119 Hoje, na cultura marcadamente pluralista,os ambientes da escola, do trabalho e da vida social, demodo geral, não comunicam valores cristãos. Muitasfamílias, chamadas “a introduzir os filhos no caminhoda iniciação cristã”,120 estão despreparadas paraassumir sozinhas a responsabilidade da educação dafé. Nesse contexto, a catequese renovada,121 de inspi-118 DA, n. 293.119 DA, n. 278c.120 DA, n. 302.121 Cf. DA, n. 294; CNBB. Doc. Catequese Renovada. São Paulo, Paulinas,1983.57ração catecumenal, adquire grande importância, nãose limitando às crianças e aos jovens, mas tendo comoprioridade a catequese adulta com adultos. Trata-sede uma catequese não ocasional, mas permanente,que implica melhor formação dos responsáveis122 eum itinerário catequético permanente por parte dasautoridades eclesiásticas123 que não se limite a ser umaformação meramente doutrinal, e sim uma verdadeiraescola de formação integral. Para isso é necessário“desenvolver em nossas comunidades um processode iniciação na vida cristã que começa pelo querigmae que, guiado pela Palavra de Deus, conduz ao encontropessoal, cada vez maior, com Jesus Cristo”.124Alimenta-se essa experiência do encontro no cultivoda amizade com Cristo pela oração, no apreço pelacelebração litúrgica, na experiência comunitária e nocompromisso apostólico, mediante um permanenteserviço aos demais.12565. Aos fiéis leigos continuem sendo oferecidas oportunidadesde formação bíblico-teológica, o que exige umarenovação da pastoral catequética nas paróquias.126Igualmente as escolas católicas, ao converterem osprincípios evangélicos em “normas educativas, motiva-122 Cf. DA, n. 296.123 Cf. DA, n. 298.124 DA, n. 289.125 Cf. DA, n. 299.126 Cf. DA, n. 294.58ções interiores e, ao mesmo tempo, em metas finais”,127colaboram nessa formação. Do mesmo modo, as universidadescatólicas, ao promoverem o diálogo entrefé e razão, fé e cultura e o conhecimento da DoutrinaSocial da Igreja, responsabilizam-se por setores específicosda formação cristã.128 As dioceses, colaborandoentre si e com os Poderes Públicos, apóiem o ensinoreligioso nas escolas públicas e particulares, se empenhempela formação de professores habilitados e competentesnessa área, que tenham a mística do discípulomissionário, e os acompanhem em seu desempenho.129É importante que as universidades e instituições deensino superior, sobretudo as católicas, organizem eofereçam cursos de graduação, preferencialmente delicenciatura plena, e pós-graduação em ensino religioso.É também importante que, nas escolas católicas enas demais, onde for possível, sejam organizados eoferecidos os conteúdos fundamentais do cristianismoe da doutrina da Igreja, partindo sempre do anúncioquerigmático da pessoa de Jesus Cristo.130 Além disso,é preciso dar apoio decidido à evangelização dajuventude nos diversos grupos do Setor Juventude,inseridos na Pastoral de Conjunto.127 DA, n. 335.128 Cf. DA, n. 342.129 Cf. DA, n. 483.130 Cf. DA, n. 278.5966. É pela pregação da Palavra131 que todos podem teracesso à fé e à salvação, chegando a conhecer aoDeus único e verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele queo Pai enviou.132 Portanto, devemos anunciar o domdo encontro com Jesus Cristo, transbordando de gratidãoe alegria,133 ser “portadores de boas novas paraa humanidade”134 e, como discípulos missionários,anunciar a todos o Evangelho do Reino.135 A evangelizaçãocomporta também o anúncio e a propostamoral. “Tanto ou mais ainda que, pelas verdades dafé, é ao propor os fundamentos e os conteúdos damoral cristã que a nova evangelização manifesta suaautenticidade e, ao mesmo tempo, expande toda asua força missionária, quando se realiza com o domnão só da palavra anunciada, mas também da palavravivida.”136 O ministério da Palavra, pelo chamado doEspírito, revela-se no carisma da profecia. Como emtoda a sua história, nas últimas décadas, a Igreja foiinterpelada e iluminada pelo testemunho de inúmerosprofetas e mártires. Profecia e martírio são legadosda memória da Igreja chamada a testemunhar, comcoragem e liberdade, a Palavra que defende a vida ejulga os poderes deste mundo.131 Cf. Rm 10,17.132 Cf. Jo 17,3.133 Cf. DA, n. 14.134 DA, n. 30.135 Cf. DA, n. 144.136 João Paulo II. VS, n. 107.60MinistérIO
Igreja em estadopermanente de missão47. O projeto salvífico de Deus se realiza na humanidadeatravés de um povo, o Povo de Deus, com a missãode ser luz para as nações. Também a Igreja Primitivase entendeu como Novo Povo de Deus,57 que deverialevar a salvação de Jesus Cristo através dos séculospara todos os homens e mulheres. Vivendo e proclamandoos valores do Reino de Deus, a Igreja é, assim,o “sacramento universal da salvação”.58A comunidade missionária48. Ao acolher a pessoa de Jesus Cristo, pela fé, o cristãose une a ele e entra em comunhão com o Pai59 e o EspíritoSanto. A comunhão com a Santíssima Trindadeé o fundamento da comunhão de todos na Igreja, “sacramentoou sinal e instrumento da íntima união comDeus”60 e da missão no mundo. Portanto, “a vocação57 Cf. 1Pd 2,9s.58 LG, n. 48.59 Cf. 1Jo 1,3.60 LG, n. 48.44ao discipulado missionário é con-vocação à comunhãoem sua Igreja. Não há discipulado sem comunhão”61e missão. Nossa fé é teologal em seu objeto. Ela seorienta ao Deus da Vida: Pai, Filho e Espírito Santo.É eclesial em sua realização histórica. Sempre cremospela mediação da Igreja. Nela e por ela o discípulo setorna sujeito do ato de fé.49. Como membros da Igreja, somos chamados a vivere a transmitir a comunhão com a Trindade, antecipandoa comunhão perfeita e definitiva com Deus ecom as pessoas,62 convidando outros a participaremdessa comunhão.63 De fato, a Igreja evangeliza como“comunidade de amor” 64que atrai à medida que seusmembros vivem o amor fraterno65 e interpelam assimos demais a participar da “aventura da fé”.66 Então elapoderá ser “reconhecida como seguidora de Cristo eservidora da humanidade”.67 Desse modo, “a comunhãoe a missão estão profundamente unidas entre si[…]. A comunhão é missionária e a missão é para acomunhão”.68 A Igreja é chamada a representar demaneira pública a vontade de Deus.61 DA, n. 156.62 Cf. DA, n. 160.63 Cf. DA, n. 157.64 Bento XVI. DCE, n. 19.65 Cf. Rm 12,4; Jo 13,34.66 DA, n. 159.67 DA, n. 161.68 João Paulo II. ChL, n. 32.4550. Nutrida pela Palavra e pela Eucaristia, a Igreja é a“casa e escola de comunhão”,69 “onde os discípuloscompartilham a mesma fé, esperança e amor a serviçoda missão evangelizadora”.70 Ela constitui umaunidade orgânica formada por uma diversidade decarismas, ministérios e serviços, todos eles colaborandopara o único Corpo de Cristo. Cada batizadoé portador de dons que deverão ser desenvolvidosem comunhão com os demais em vista da irradiaçãomissionária da comunidade eclesial.71 Nesse sentido,todos os organismos eclesiais devem “estar animadospor uma espiritualidade de comunhão missionária”,72sem a qual os instrumentos externos da comunhãopouco ajudariam.As exigências e os âmbitos da evangelização51. As atuais Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadoracontinuam ressaltando o serviço, o diálogo, o anúncioe o testemunho de comunhão como quatro exigênciasintrínsecas da evangelização: O evangelizador, tendopresente o contexto em que se encontra, deve mostrarque sua mensagem está a serviço da vida, sobretudonum tempo em que ela se encontra sujeita às maisdiversas ameaças, que produzem situações desuma-69 João Paulo II. NMI, n. 43.70 DA, n. 158.71 Cf. DA, n. 162.72 Cf. DA, n. 203.46nas incompatíveis com o Reino de Vida trazido porCristo.73• Quem evangeliza se põe a serviço de seu “dinamismode libertação integral, de humanização, dereconciliação e de inserção social”.74 Esse serviçopressupõe o respeito aos outros, o conhecimento deconcepções de vida, de seus problemas existenciais,de seus anseios e frustrações, de suas alegrias etristezas.75• Isso exige escuta e diálogo sobre o sentido daexistência, fé em Deus e oração, com a consciênciade que nas demais convicções religiosas estãopresentes as “sementes do Verbo”.• Nesse diálogo será possível esclarecer as razõesda nossa esperança e chegar ao anúncio do Evangelho,Palavra viva de Jesus. O centro e o ápice dodinamismo missionário da comunidade eclesial háde ser sempre “uma proclamação clara de que, emJesus Cristo, Filho de Deus feito homem, morto eressuscitado, a salvação é oferecida a todos os sereshumanos como dom da graça e da misericórdia domesmo Deus”.76• Da fé em Jesus Cristo, suscitada, acolhida e partilhada,nasce a comunidade dos discípulos missionários,73 Cf. DA, n. 358.74 DA, n. 359.75 GS, n. 1.76 Paulo VI. EN, n. 27.47chamada a dar o testemunho da comunhão. Unidapela fé compartilhada, a comunidade cristã é chamadaa viver e testemunhar o amor que une todosos que crêem em Jesus Cristo na Igreja, a famíliade Deus, para o serviço ao mundo.7752. A ordem serviço-diálogo-anúncio-comunhão expressauma seqüência pedagógica das exigências – todaselas essenciais – da evangelização. Do ponto de vistadas finalidades ou dos valores, porém, o anúncio doEvangelho deve ter primado ou prioridade permanente.É para ele que se volta a missão de evangelizar: “Aevangelização conterá sempre, como base, centro e,ao mesmo tempo, vértice de seu dinamismo, umaproclamação clara de que em Jesus Cristo a salvaçãoé oferecida a cada homem, como dom de graça emisericórdia do próprio Deus”.78 Urge, pois, “umaevangelização muito mais missionária, em diálogo comtodos os cristãos e a serviço de todos os homens”.7953. Na seqüência anterior se explicitam as dimensõesconstitutivas da evangelização. Quando a proclamaçãodo Evangelho atinge o coração da pessoa, exigindodela uma resposta de fé, descreve-se melhor o caminhopercorrido pelo sujeito da fé. As etapas dessa caminhada,descritas pelo Documento de Aparecida, são: encontrovivo com Jesus Cristo, conversão, discipulado,77 Cf. Jo 17,21.78 João Paulo II. RM, n. 44; Paulo VI. EN, n. 27.79 DA, n. 13.48comunhão e missão. Essencialmente essas etapas doDocumento de Aparecida se articulam perfeitamentecom as quatro exigências de nossa ação evangelizadora.De fato, a conversão nasce do anúncio e por ele sesustenta; por sua vez, o discipulado, fiel ao chamadoamoroso e íntimo do Mestre, deve traduzir-se sempreem serviço, humanizador e libertador, à vida; a comunhãodeve traduzir-se em testemunho de comunhãodentro da comunidade cristã; bem como em diálogodos que buscam o Reino de coração sincero. Dessemodo, a missão tão preconizada pelo Documentode Aparecida engloba todas as quatro exigências daevangelização das atuais Diretrizes.54. Nesse processo queremos explicitar a importância doanúncio e testemunho. São duas modalidades, complementarese conexas, da missão cristã. O anúncioindica mais propriamente a “proclamação explícita”da mensagem do Evangelho. O anúncio querigmáticoé não somente o início, mas também “o fio condutorde um processo que culmina na maturidade do discípulode Jesus Cristo”.80 É o anúncio que proporcionaum autêntico encontro com Jesus Cristo,81 que leva àconversão de vida, ao discipulado, à comunhão eclesiale à missão.82 O testemunho pode ser dado pelapalavra, mas é principalmente uma atitude de vida,muitas vezes silenciosa. O mundo de hoje “escuta com80 DA, n. 278.81 Cf. DA, n. 289.82 Cf. DA, n. 278.49melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres,ou então, se escuta os mestres, é porque eles sãotestemunhas”.83 O testemunho pode assumir diversosaspectos. A atitude de solidariedade ou de serviço, aabertura de diálogo, uma declaração franca da própriafé, o exemplo de uma vida fraterna e inspirada peloamor, o posicionamento a favor dos mais fracos, umsério compromisso pela justiça: tudo isso é testemunhoque pode chegar à máxima expressão na doação daprópria vida.84 Expressão privilegiada do testemunhoé a comunhão eclesial, condição para que o mundocreia. Fazer da Igreja a casa e a escola de comunhão:eis o grande desafio que nos espera.55. Desse modo, a evangelização exige muita atenção àsituação em que vivemos, bem como sincera aberturade espírito e solidariedade diante das aspirações,angústias e interrogações da nossa época.85 Maisconcretamente, nos deparamos com sérios desafios deordem cultural e religiosa, social, política, econômica,ecológica, com sérias conseqüências para o futuro denossa população.86 Além disso, uma evangelizaçãoinsuficiente em nosso passado eclesial, e ainda hoje,dá origem a uma multidão de batizados e crismadosnão praticantes, que se encontram afastados de umavivência cristã e eclesial e que necessitam de adequada83 Paulo VI. EN, n. 41.84 Cf. DA, n. 275.85 Cf. GS, n. 1.86 Cf. DA, n. 33-97.50pastoral evangelizadora por parte da Igreja.87 Já nãobasta uma pastoral de mera conservação; faz-se necessárioresponder às carências que explicam a saída demuitos católicos da Igreja, e que concernem à experiênciareligiosa, à vivência comunitária, à formaçãobíblico-doutrinal e ao compromisso missionário detoda a comunidade.88 Para alcançar esse objetivo, énecessária uma “permanente conversão pastoral” porparte dos bispos, presbíteros, diáconos permanentes,consagrados, leigos e leigas,89 para que não nos instalemos“na comodidade, no estancamento e na indiferença,à margem do sofrimento dos pobres”.9056. As quatro exigências intrínsecas da evangelização seoperacionalizam pastoralmente pela presença da Igrejanos três âmbitos de ação, que constituem tanto o espaçocomo as realidades onde o Evangelho precisa ser encarnado:pessoa, comunidade e sociedade. Não se tratade realidades estanques e isoladas, mas interligadas ecomplementares. Pessoas evangelizadas, ao se fazeremdom, transbordam na comunidade, que, por sua vez,enquanto comunidade eclesial, existe para o serviço deDeus na sociedade. Em relação a esses três âmbitos,posteriormente serão indicadas algumas pistas de açãopara a missão evangelizadora no Brasil.87 Cf. DA, n. 286.88 Cf. DA, n. 226.89 Cf. DA, n. 366.90 DA, n. 362.51A vocação e missão dos discípulos missionários57. O discípulo é alguém chamado por Jesus Cristo paracom ele conviver, participar de sua Vida, unir-se àsua Pessoa91 e aderir à sua missão, colaborando comela.92 Entrega, assim, sua liberdade a Jesus, Caminho,Verdade e Vida;93 assume “o estilo de vida do próprioJesus”, a saber, um amor incondicional, solidário,acolhedor até a doação da própria vida;94 e compartilhado destino do Mestre de Nazaré.95 Como não podemosseparar Jesus de sua missão salvífica, também nãopodemos conceber um cristão que não colabora noanúncio e na realização do Reino de Deus na históriahumana. Essa missão é, por conseqüência, parte integranteda identidade cristã. Por isso, “todo discípuloé missionário”.96 Em resumo: “Discipulado e missãosão como as duas faces da mesma moeda”.9758. Esta vocação missionária, inerente à fé cristã, consisteprimeiramente em dar testemunho e anunciar JesusCristo vivo, experimentado pelo fiel num encontropessoal, que significou plenitude e alegria.98 Esse91 Cf. Mc 1,17; 2,14.92 Cf. DA, n. 131.93 Cf. Jo 14,6; DA, n. 136.94 Cf. DA, n. 139.95 Cf. DA, n. 140.96 DA, n. 144.97 DA, n. 146.98 Cf. DA, n. 145.52encontro pessoal com Jesus Cristo não só traz a felicidadeao fiel, mas ainda o impulsiona a proclamare promover o Reino da Vida,99 que Deus quer para ahumanidade e que transparece nas palavras e nas açõesde Jesus Cristo.100 Esse Reino da Vida diz respeitoà totalidade da existência humana, incluindo “suadimensão pessoal, familiar, social e cultural”.101 Daídecorre que “a santidade não é fuga para o intimismoou para o individualismo religioso, […] e muito menosfuga da realidade para um mundo exclusivamenteespiritual”.10259. A Vida do Pai, que nos chega em Cristo e por ele,é “incompatível com situações desumanas”, oucom “as graves desigualdades sociais e as enormesdiferenças no acesso aos bens”.103 Mais: a salvaçãode Jesus Cristo diz respeito não só aos indivíduos.Ela deve atingir também “as relações sociais entreos seres humanos”.104 Por isso, o anúncio de JesusCristo vivo, a evangelização, “envolve a promoçãohumana e a autêntica libertação”.105 Nessa perspectiva,“a doutrina, as normas, as orientações éticas etoda a atividade missionária da Igreja devem deixar99 Cf. DA, n. 29.100 Cf. DA, n. 353.101 DA, n. 356.102 DA, n. 148.103 DA, n. 358.104 DA, n. 359.105 DA, n. 399.53transparecer essa atrativa oferta de vida mais digna,em Cristo, para cada homem e para cada mulher”.106Assim compreende-se melhor que “o encontro comJesus Cristo nos pobres é uma dimensão constitutivade nossa fé em Jesus Cristo”.107 Desse modo, dá-sesentido pleno a toda ação social da Igreja através dosdiscípulos missionários, que participam responsavelmentena construção de uma sociedade mais justa, nareabilitação da ética e da política, no trabalho por umacultura da co-responsabilidade.108A missão segundo o tríplice múnus60. A Igreja, por fidelidade a Cristo e à missão dele recebida,tem a estrita responsabilidade de oferecer, emcada época, o acesso à Palavra de Deus, à celebraçãoda Eucaristia e aos demais sacramentos, e de cuidarda caridade fraterna e do serviço dos pobres. Umaantiga tradição, que se inspira na Palavra de Deus eque foi diversamente retomada na história da Igreja,descreve essa responsabilidade segundo um tríplicemúnus: ministério da Palavra, ministério da liturgia eministério da caridade.106 DA, n. 361.107 DA, n. 257.108 Cf. DA, n. 406.54Ministério da Palavra61. A proclamação da Palavra de Deus pela Igreja édecisiva para a fé do cristão, já que ela possibilita oacolhimento livre do anúncio salvífico da pessoa deCristo, acolhimento esse possibilitado pela atuaçãodo Espírito Santo.109 “Não se começa a ser cristão poruma decisão ética ou uma grande idéia, mas atravésdo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa,que dá um novo horizonte à vida e, com isso,uma orientação decisiva.”110 É através da pregação doquerigma que acontece um autêntico encontro comJesus Cristo; por isso ele deve ser uma oferta imprescindívela todos.111 “O poder do Espírito e da Palavracontagia as pessoas e as leva a escutar a Jesus Cristo,a crer nele como seu Salvador, a reconhecê-lo comoquem dá o pleno significado a suas vidas e a seguirseus passos.”112 Sabemos através da tradição da Igrejaque a formação do cristão acontece sempre a partir deuma experiência salvífica com Jesus Cristo, anunciadoe testemunhado por outros cristãos, a qual se pode darem qualquer contexto vital.113109 Cf. 1Cor 12,3.110 Bento XVI. DCE, n. 1.111 Cf. DA, n. 226a.112 DA, n. 279.113 Cf. DA, n. 290.5562. O anúncio e a acolhida da Palavra são, portanto, fundamentaispara a vida e a missão da Igreja114 e ocupamlugar central na liturgia. Cristo “está presente em suaPalavra, pois é ele quem fala quando se lêem as SagradasEscrituras”.115 Assim, a proclamação da Palavra naliturgia torna-se para os fiéis a primeira e fundamentalescola da fé. Por isso, é essencial que pastores e fiéisse empenhem para que a Palavra seja claramente anunciadanas celebrações ao longo do ano litúrgico, sejacomentada e refletida com homilias cuidadosamentepreparadas, e encarnada na vida.63. Faz-se necessário, pois, uma pastoral bíblica entendidacomo “animação bíblica da pastoral, que sejaescola de interpretação ou conhecimento da Palavra,de comunhão com Jesus ou oração com a Palavra, ede evangelização inculturada ou de proclamação daPalavra”.116 “Entre as muitas formas de se aproximarda Sagrada Escritura, existe uma privilegiada, à qualsomos todos convidados: a lectio divina ou o exercíciode leitura orante da Sagrada Escritura. Com seus quatromomentos (leitura, meditação, oração e contemplação),favorece o encontro pessoal com Jesus Cristo.”117Sejam, portanto, incentivadas e reforçadas a prática daleitura pessoal e orante da Bíblia, conforme as orientaçõesdo Concílio Vaticano II e, de modo especial, a114 Cf. Bento XVI, DA: Discurso Inaugural, n. 3.115 SC, n. 7.116 DA, n. 248.117 DA, n. 249.56prática dos círculos bíblicos ou das reuniões de grupo,com a partilha da vivência da Palavra para a edificaçãomútua, de modo que a Palavra de Deus iluminea realidade vivida pelos participantes, animando-ose despertando-os para o compromisso evangélico aserviço do Reino de Deus. “A paróquia precisa ser olugar onde se assegure a iniciação cristã, e terá comotarefas irrenunciáveis: iniciar na vida cristã os adultosbatizados e não suficientemente evangelizados; educarna fé as crianças batizadas em um processo que asleve a completar sua iniciação cristã; iniciar os nãobatizadosque, havendo escutado o querigma, queremabraçar a fé.”11864. O ministério da Palavra exige o ministério da catequesea todos, porque “fortalece a conversão inicial e permiteque os discípulos missionários possam perseverar navida cristã e na missão em meio ao mundo que osdesafia”.119 Hoje, na cultura marcadamente pluralista,os ambientes da escola, do trabalho e da vida social, demodo geral, não comunicam valores cristãos. Muitasfamílias, chamadas “a introduzir os filhos no caminhoda iniciação cristã”,120 estão despreparadas paraassumir sozinhas a responsabilidade da educação dafé. Nesse contexto, a catequese renovada,121 de inspi-118 DA, n. 293.119 DA, n. 278c.120 DA, n. 302.121 Cf. DA, n. 294; CNBB. Doc. Catequese Renovada. São Paulo, Paulinas,1983.57ração catecumenal, adquire grande importância, nãose limitando às crianças e aos jovens, mas tendo comoprioridade a catequese adulta com adultos. Trata-sede uma catequese não ocasional, mas permanente,que implica melhor formação dos responsáveis122 eum itinerário catequético permanente por parte dasautoridades eclesiásticas123 que não se limite a ser umaformação meramente doutrinal, e sim uma verdadeiraescola de formação integral. Para isso é necessário“desenvolver em nossas comunidades um processode iniciação na vida cristã que começa pelo querigmae que, guiado pela Palavra de Deus, conduz ao encontropessoal, cada vez maior, com Jesus Cristo”.124Alimenta-se essa experiência do encontro no cultivoda amizade com Cristo pela oração, no apreço pelacelebração litúrgica, na experiência comunitária e nocompromisso apostólico, mediante um permanenteserviço aos demais.12565. Aos fiéis leigos continuem sendo oferecidas oportunidadesde formação bíblico-teológica, o que exige umarenovação da pastoral catequética nas paróquias.126Igualmente as escolas católicas, ao converterem osprincípios evangélicos em “normas educativas, motiva-122 Cf. DA, n. 296.123 Cf. DA, n. 298.124 DA, n. 289.125 Cf. DA, n. 299.126 Cf. DA, n. 294.58ções interiores e, ao mesmo tempo, em metas finais”,127colaboram nessa formação. Do mesmo modo, as universidadescatólicas, ao promoverem o diálogo entrefé e razão, fé e cultura e o conhecimento da DoutrinaSocial da Igreja, responsabilizam-se por setores específicosda formação cristã.128 As dioceses, colaborandoentre si e com os Poderes Públicos, apóiem o ensinoreligioso nas escolas públicas e particulares, se empenhempela formação de professores habilitados e competentesnessa área, que tenham a mística do discípulomissionário, e os acompanhem em seu desempenho.129É importante que as universidades e instituições deensino superior, sobretudo as católicas, organizem eofereçam cursos de graduação, preferencialmente delicenciatura plena, e pós-graduação em ensino religioso.É também importante que, nas escolas católicas enas demais, onde for possível, sejam organizados eoferecidos os conteúdos fundamentais do cristianismoe da doutrina da Igreja, partindo sempre do anúncioquerigmático da pessoa de Jesus Cristo.130 Além disso,é preciso dar apoio decidido à evangelização dajuventude nos diversos grupos do Setor Juventude,inseridos na Pastoral de Conjunto.127 DA, n. 335.128 Cf. DA, n. 342.129 Cf. DA, n. 483.130 Cf. DA, n. 278.5966. É pela pregação da Palavra131 que todos podem teracesso à fé e à salvação, chegando a conhecer aoDeus único e verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele queo Pai enviou.132 Portanto, devemos anunciar o domdo encontro com Jesus Cristo, transbordando de gratidãoe alegria,133 ser “portadores de boas novas paraa humanidade”134 e, como discípulos missionários,anunciar a todos o Evangelho do Reino.135 A evangelizaçãocomporta também o anúncio e a propostamoral. “Tanto ou mais ainda que, pelas verdades dafé, é ao propor os fundamentos e os conteúdos damoral cristã que a nova evangelização manifesta suaautenticidade e, ao mesmo tempo, expande toda asua força missionária, quando se realiza com o domnão só da palavra anunciada, mas também da palavravivida.”136 O ministério da Palavra, pelo chamado doEspírito, revela-se no carisma da profecia. Como emtoda a sua história, nas últimas décadas, a Igreja foiinterpelada e iluminada pelo testemunho de inúmerosprofetas e mártires. Profecia e martírio são legadosda memória da Igreja chamada a testemunhar, comcoragem e liberdade, a Palavra que defende a vida ejulga os poderes deste mundo.131 Cf. Rm 10,17.132 Cf. Jo 17,3.133 Cf. DA, n. 14.134 DA, n. 30.135 Cf. DA, n. 144.136 João Paulo II. VS, n. 107.60MinistérIO
DIRETRIZES GRAIS DA AÇÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA DO BRASIL 2008-2010
Texto aprovado no dia 10/04/200846a
Assembléia Geral
Itaici – Indaiatuba, SP,
de 2 a 11 de abril de 2008
Objetivo geral
Evangelizar,a partir do encontro com Jesus Cristo,como discípulos missionários,à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres,promovendo a dignidade da pessoa,renovando a comunidade,participando da construção de uma sociedade justa e solidária,“para que todos tenham Vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
9 Apresentação Esperadas há um ano, enraizadas na realidade, nutridas com a memória da caminhada, banhadas no acontecimento de Aparecida, elaboradas em espírito de comunhão fraterna por pessoas que, na força do Espírito e a partir do chamado a um encontro pessoal com Jesus Cristo, querem ser seus(as) discípulos(as) missionários(as) para que, nele,nossos povos tenham vida: eis as novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil.Sucessivos encontros nos mais diversos níveis foram dando forma, conteúdo e vida a este decisivo instrumento da pastoral orgânica da Igreja em nosso país.Foi na 46a Assembléia Geral dos Bispos do Brasil,em Itaici, de 2 a 11 de abril de 2008, que as Diretrizes Gerais ocuparam o lugar do tema central, o mais importante.O texto preparatório, já remodelado por muitas emendas e sugestões, foi distribuído, estudado pessoalmente e em grupo; revisto, discutido, votado e aprovado.É bom esclarecer que, pela seqüência do calendário,a elaboração das Diretrizes já deveria ter sido efetuada na Assembléia de 2007. Tendo em vista, porém, a realização da V Conferência Geral dos Bispos da América Latina e do Caribe, em maio de 2007, a definição das Diretrizes foi protelada por um ano, exatamente para incorporar as contribuições de Aparecida.10 Desse modo, uniram-se em harmonia duas vertentes.De um lado, a tradição da pastoral orgânica no Brasil,suscitada desde o Plano de Emergência, passando pelos Planos da Pastoral de Conjunto, chegando até as Diretrizes Gerais. Do outro lado, o Documento e o Acontecimento de Aparecida, com suas intuições, com suas luzes e com sua inestimável experiência. Este último, por sua vez, indicava:“As Conferências Episcopais ou outros organismos locais avancem em considerações mais amplas, concretas e adaptadas às necessidades do próprio território” (Documento de Aparecida, n. 431).De fato, a graça de ser discípulo-missionário pelo encontro pessoal com Cristo, o sentido da vida encontradona comunhão da comunidade, o despertar da alegria da missão permanente para a vida, vêm infundir novo ânimo ao serviço da caridade, ao anúncio da Palavra e à celebração na liturgia. É assim que a missão se revigora na acolhida da pessoa, na renovação da comunidade e na construção de uma sociedade mais justa e solidária.Talvez muitos hão de perguntar: por que, desta vez,o período da vigência das novas Diretrizes é só de três anos(2008-2010)? É que, na organização da CNBB, a Assembléia elabora primeiro as Diretrizes. Depois, escolhe aqueles que deverão colaborar mais diretamente para colocá-la sem prática, ou seja, a Presidência e os membros do CONSEP– Conselho Episcopal Pastoral. Dada a espera pela V Conferência de Aparecida, estas Diretrizes durarão um ano 11a menos, podendo, porém, ser prorrogadas no momento oportuno, por mais quatro anos, se a Assembléia Geral dos Bispos assim o decidir.É importante notar que as Diretrizes não são um documento a mais. São o Documento-Chave para a leitura e aplicação de todos os demais. Em meio a tantos artigos,textos, documentos e estudos de diversas pessoas, organismos,movimentos e pastorais, elas são imprescindíveis para todos os que se alegram em assumir a Missão Evangelizadora:Comissões Episcopais, Dioceses, redes de comunidades,organismos, movimentos, congregações, em suma todos os agentes de pastoral. Assim, se constrói a unidade respeitando e valorizando as diferenças, bem como evitando a dispersão de esforços e iniciativas. Com isso, não se desvaloriza nenhuma atividade pessoal nem se desmerece nenhum carisma especial. Antes, eles são reforçados, partilhados,comunicados, e a Igreja, Povo de Deus e Corpo de Cristo, é edificada e apresentada como testemunho digno de credibilidade do Plano de Amor do Pai.Ao apresentarmos estas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil agradecemos a todos os que participaram na sua elaboração e conclamamos a todos adarmo-nos as mãos para traduzir as palavras em vida, os desafios em entusiasmo e os propósitos em concretização.Em toda a Ação Evangelizadora esteja presente agraça da Trindade Santa em nome de quem iniciamos toda a prece e de quem recebemos toda a inspiração para viver como discípulos missionários.12 Maria, Mãe da Igreja, em cujo Santuário em Aparecida fomos retemperados para a missão permanente, nos ajude com seu exemplo e sua materna proteção.Brasília, 25 de abril de 2008.Festa de São Marcos Evangelista Dom Dimas Lara Barbosa Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro - RJSecretário Geral da CNBB13 Introdução1. No espírito do grande evento de graça da Conferênciade Aparecida, apresentamos estas Diretrizes, a fim deque a Igreja no Brasil viva uma forte comoção e experimente a alegria de ser discípula missionária, para que nossos povos em Cristo tenham Vida.2. Ao Pai de todos os dons, agradecemos a graça da fée a missão que ele confia à sua Igreja no Brasil. A fénos permite contemplar a realidade com os olhos de Jesus Cristo e nos ilumina em nosso peregrinar por este mundo, tão carente de referências sólidas e dominadopor um relativismo envolvente. Essa fé nos permite descobrir que nunca atravessamos a aventura da vida humana sozinhos, mas sempre acompanhados, inspiradose fortalecidos pelo Espírito que o Pai, por Cristo,nos envia. Essa fé nos capacita a assumir a missão de Jesus Cristo de realizar, na história, o Reino de Deus,proclamando-o com nossas palavras e testemunhando o em nossa vida.3. Agradecemos a Deus a comunidade eclesial que nos acolheu e que nos alimenta com a Palavra de Deus ecom os sacramentos, com o exemplo de seus membros,com a presença de Maria Santíssima e dos santos e santas. Agradecemos a dedicação de tantos presbíteros,diáconos, religiosos e religiosas, cristãos leigos e leigas que, com generosidade, se consagraram ao serviço do 14 Reino de Deus. Reconhecemos e agradecemos a fé simples e firme dos pobres, seu amor à Mãe de Deus, à Igreja Católica, seu exemplo de partilha e solidariedade numa cultura individualista voltada para os bens materiais.Agradecemos a todos aqueles que, no exercício de sua profissão, no mundo da política e da cultura,têm lutado pela promoção humana e pela defesa da vida. Reconhecemos a cooperação, participação e abnegada dedicação das mulheres na Igreja e na sociedade,em sua busca de participação efetiva “na vida eclesial, familiar, cultural, social e econômica, criando espaços e estruturas que favoreçam maior inclusão”.1 Agradecemos por podermos contribuir, como Igreja,para a promoção dos excluídos da sociedade tornando a humanidade mais solidária, justa e fraterna, seguindo a mensagem evangélica.4. Essa é a razão de ser da alegria que experimentamos por sermos discípulos missionários de Jesus Cristo,chamados e abençoados por Deus desde toda a eternidade.2 Alegria de sermos cristãos, movidos pela esperança que não decepciona, instrumentos de Deus para levar essa alegria da fé a nossos contemporâneos,muitos deles desorientados na atual sociedade pluralista.Temos a convicção de que “conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber;tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas 1 DA, n. 454.2 Ef 1,3.15 vidas; e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria”.35. Numa época de profundas e sucessivas mudanças socioculturais que afetam nosso mundo, trazendo novos e sérios desafios, a Igreja é chamada a proclamar com coragem, entusiasmo e criatividade a mensagem perene do Evangelho, para que nossos povos “tenham vida e a tenham em abundância”,4 a qual consiste em acolhermos a oferta que Deus nos oferece em Jesus Cristo, para assim participarmos de sua própria vida trinitária.5 “Essa vida nova de Jesus Cristo atinge oser humano por inteiro e desenvolve em plenitude a existência humana em sua dimensão pessoal, familiar,social e cultural.”6 Toda a missão de Jesus Cristo consistiu em levar à humanidade essa vida divina manifestada em suas palavras 7 e concretizada em suas ações. O Reino que ele proclamava era de fato um Reino de Vida.6. O conteúdo central da missão é levar vida plena a todos, e toda a atividade missionária é compromisso e empenho por uma vida mais digna em Cristo.8 “Porém,as condições de vida de muitos abandonados, excluídos 3 DA, n. 29.4 Jo 10,10.5 Cf. 2Pd 1,4.6 DA, n. 356.7 Cf. Jo 6,68.8 Cf. DA, n. 361.16 e ignorados em sua miséria e dor contradizem esse projeto do Pai e desafiam os cristãos a maior compromisso a favor da cultura da vida.”9 Pois o amor a Deusse mostra autêntico no amor ao próximo e, sobretudo,ao próximo em necessidade.10 Daí, ser “o serviço de caridade entre os pobres um campo de atividade que caracteriza de maneira decisiva a vida cristã, o estilo eclesial e a programação pastoral”.117. Essa evangelização é tarefa de todos os fiéis, chamado sem virtude de seu Batismo a serem discípulos missionários de Jesus Cristo.12 De modo especial o laicato,devidamente formado, deve “atuar como verdadeiro sujeito eclesial”.13 Todo cristão só faz jus a esse nome enquanto acolhe a pessoa de Jesus Cristo e assume sua missão pelo Reino.14 Só assim ele transforma sua vida,orientando-a pelo estilo de vida do próprio Jesus.15 “Amissão não é tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã.”16 “Ela não se limita a um programa ou projeto, mas é compartilhar a experiência do acontecimento do encontro com Cristo, testemunhá-lo e 9 DA, n. 358.10 Cf. Mt 25,40.11 DA, n. 394.12 Cf. Bento XVI. DA: Discurso Inaugural, n. 3.13 DA, n. 497.14 DA, n. 144.15 DA, n. 131; 139.16 DA, n. 144.17 anunciá-lo de pessoa a pessoa”,17 tornando “visível o amor misericordioso do Pai, especialmente para com os pobres e pecadores”.188. O desempenho da missão evangelizadora pede, de cada um de nós, uma profunda vivência de fé, fruto de uma experiência pessoal de encontro com a pessoa de Jesus Cristo, em seu seguimento. Nossa conversão pessoal nos possibilita impregnar com uma “firme decisão missionária todas as estruturas eclesiais e todos os planos pastorais […] de qualquer instituição da Igreja”,19 exigindo nossa conversão pastoral, que implica escuta e fidelidade ao Espírito,20 impelindo-nos à missão e sensibilidade às mudanças socioculturais,animada por “uma espiritualidade de comunhão e participação”.219. Cada diocese será uma “comunidade missionária”22 à medida que não fortalecer apenas sua consciência missionária,com gestos concretos de ida ao encontro dos outros, mas também responder aos grandes problemas da sociedade onde se encontra.23 Esses desafios exigem 17 DA, n. 145.18 DA, n. 147.19 DA, n. 365.20 DA, n. 366.21 DA, n. 368.22 João Paulo II. ChL, n. 32.23 DA, n. 168.18“imaginação e criatividade para chegar às multidões”.24 Em se considerando a cultura urbana, é preciso um estilo pastoral adequado que atinja as pessoas através de práticas pastorais e estruturas evangelizadoras.25 De modo especial, pois que os pobres são a maioria da população, a Igreja deverá assumir mais efetivamente o desafio missionário com o espírito evangélico que a anima, sendo realmente a “casa dos pobres”.2610. Estamos conscientes de nossos limitados recursos materiais, bem como da insuficiência de agentes de pastoral para respondermos devidamente a esses apelos do Espírito. Mas não esmorecemos nem desanimamos,pois somos animados pelo mesmo Espírito que impeliu os apóstolos, em circunstâncias mais adversas que as nossas, a proclamarem corajosamente o Evangelho de Deus, o Cristo Ressuscitado, nossa Páscoa. Imploramos também a ajuda da Mãe de Deus, Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, tão querida por nosso povo, para que nos acompanhe na missão evangelizadora que seu Filho nos confia.11. Nos capítulos seguintes examinaremos, primeiramente,em seus aspectos fundamentais, a realidade quenos interpela e à qual vai mais concretamente dirigida nossa missão. Trata-se de uma exposição descritiva que pretende apenas mencionar os elementos de cunho cul-24 DA, n. 173.25 DA, n. 518a.26 DA, n. 8.19tural, social, econômico, político, ético e religioso mais marcantes na atual sociedade brasileira. Em seguida, a iluminação teológica apontará e explicitará as quatro exigências intrínsecas da evangelização: o serviço, o diálogo, o anúncio e o testemunho de comunhão. A ação evangelizadora acolhe essas exigências e se realiza através do tríplice múnus: ministério da Palavra,ministério da liturgia e ministério da caridade. Também nesse mesmo capítulo, se apresentará a vocação do discípulo missionário, sua formação, bem como a Igreja como comunidade missionária. No terceiro capítulo veremos as pistas de ação pastoral que nortearão a Igreja no Brasil para os próximos anos. Finalmente,na conclusão, abordaremos a Missão Continental em nosso país.
21 Capítulo I A realidade que nos interpela 12. Nosso olhar sobre a realidade brasileira, como discípulos missionários de Jesus Cristo, se dá em meio aluzes e sombras de nosso tempo. As grandes mudanças“nos afligem, mas não nos confundem”.27 Antes,desafiam-nos “a discernir os ‘sinais dos tempos’ à luzdo Espírito Santo, para nos colocar a serviço do Reino,anunciado por Jesus, que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância”.28 A principal luz anos iluminar no discernimento dos sinais dos tempos é a do Espírito de Deus. Aproveitamos a contribuição das ciências sociais e humanas, na medida em que nos fazem conhecer melhor a realidade em que vivemos e clareiam suas causas.13. A novidade das profundas transformações, que acontecem também em nosso país, diferentemente do ocorrido em outras épocas, têm alcance global que,com diferenças e matizes, afetam o mundo inteiro,atingindo todas as dimensões da vida humana. “Um fator determinante dessas mudanças é a ciência e a tecnologia, com sua capacidade de manipular geneticamente a própria vida dos seres vivos, e com sua 27 DA, n. 20.28 DA, n. 33.22 capacidade de criar uma rede de comunicações de alcance mundial, tanto pública como privada, para interagirem tempo real, ou seja, com simultaneidade, não obstante as distâncias geográficas. Como se costuma dizer, a história se acelerou e as próprias mudanças se tornam vertiginosas, visto que se comunicam com grande velocidade a todos os cantos do planeta”,29 configurando uma mudança de época, mais que uma época de mudanças.3014. Como discípulos missionários não vamos, aqui, fazer uma análise meramente científica do contexto de nossa missão evangelizadora. Interessa-nos como discípulos missionários de Jesus Cristo em sua Igreja “saber como esse fenômeno afeta a vida de nossos povos e o sentido religioso e ético de nossos irmãos que buscam infatigavelmente o rosto de Deus e, que, no entanto,devem fazê-lo agora desafiados por novas linguagens do domínio técnico, que nem sempre revelam, mas que também ocultam o sentido divino da vida humana redimida em Cristo”.31 Neste novo contexto sociocultural,“a realidade para o ser humano tornou-se cada vez mais sem brilho e complexa”, ensinando-nos a olhá-la “com mais humildade, sabendo que ela é maior e mais complexa que as simplificações com que costumávamos vê-la em passado ainda não muito distante”.3229 DA, n. 34.30 Cf. DA, n. 44.31 DA, n. 35.32 DA, n. 36.23 Situação sociocultural 15. É o sentido que unifica toda a experiência humana.O contexto sociocultural contemporâneo comprovao fenômeno de uma crescente fragmentação dos referenciais de sentido e relativização dos valores,gerando critérios parciais e múltiplos na consideração das realidades da vida, nas opções religiosas e nos relacionamentos pessoais. Tornou-se difícil percebera unidade de todos os fragmentos dispersos que nos chegam. No entanto, na medida em que nenhum desses critérios parciais consegue nos oferecer um significado adequado a toda a realidade, gera-se uma crise de sentido, levando as pessoas a sentirem-se frustradas,ansiosas e angustiadas pela dificuldade de poder influir nos acontecimentos.3316. Habitualmente esse sentido global, capaz de unificar os diferentes fragmentos, vem das tradições culturais,principalmente religiosas. No entanto, essas tradições estão-se diluindo, sobretudo em seu núcleo mais profundo, constituído pela experiência religiosa devida no interior da família. Os meios de comunicação invadiram todos os espaços e todas as conversas,introduzindo-se na intimidade do lar. Competindo com a sabedoria das tradições, deparamo-nos com a informação de último minuto, a distração, o entretenimento,as imagens dos vencedores que souberam 33 Cf. DA, n. 36.24 usar das ferramentas tecnológicas e das expectativas de prestígio e estima social. A falta de verdadeira informação,que se busca suprir com novas informações,intensifica a ansiedade de quem percebe que está em um mundo opaco, que não compreende.3417. No campo cultural, apesar de aspectos positivos da globalização – maior produção e circulação de bens,facilidade de comunicação, progressos tecnológicos–, a impressão que prevalece na opinião pública,inclusive nos países mais ricos, os mais beneficiados pela globalização, é de desencanto.35 Ela provoca crescimento econômico muito desigual, favorável para alguns países, fraco ou até negativo para outros.Particularmente prejudicial aos países em desenvolvimento tem sido a circulação de capitais especulativos sempre em busca de maior lucro, que repentinamente abandonam esses países e os condenam a crises profundas.Não se percebe com clareza um Projeto de Nação, com substancial diminuição das desigualdades;antes, elas parecem ter aumentado tanto no interior de um mesmo país como entre as diversas nações. Em nossa sociedade, em lugar da segurança e do progresso prometidos, a globalização provocou um aumento sensível de riscos. Temem-se as catástrofes climáticas e ecológicas, conseqüência da intervenção humana 34 Cf. DA, n. 42.35 Cf. CNBB. Doc. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: 2003-2006, n. 46. São Paulo, Paulinas, 2003; João Paulo II. Em n. 20.25 sem limites, agressiva ao meio ambiente. Temem-se também possíveis desastres químicos e atômicos. A violência e o terrorismo crescentes são sentidos por todos. Mesmo quem não se preocupa com esses fenômenos mundiais teme pela violência cotidiana e por seu posto de trabalho, vivendo na insegurança de seu futuro e de sua família.18. Diante das incertezas e do risco, as pessoas buscam uma satisfação imediata. E a atual sociedade mantémaceso o desejo de consumo, criando artificialmente novas necessidades, e dando a impressão enganosa de que cada um pode escolher e comprar o que quiser. “A avidez do mercado descontrola o desejo de crianças,jovens e adultos. A publicidade conduz ilusoriamente a mundos distantes e maravilhosos, onde todo o desejo pode ser satisfeito pelos produtos que têm caráter eficaz, efêmero e até messiânico. Legitima-se que os desejos se tornem felicidade. Como só se necessita do imediato, pretende-se alcançar a felicidade através dobem-estar econômico e da satisfação hedonista.”3619. Na esfera da vida privada, com graves conseqüências para a vivência cristã, predomina a mentalidade segundo a qual cada um se julga absolutamente dono de suas decisões, aceitando cada vez menos as orientações da sociedade, mesmo os imperativos éticos mais elementares, gerando um clima de permissividade e de sensualidade. Encontra-se entre nós 36 DA, n. 50.26a generalizada convicção que nega o nexo intrínseco e indivisível entre fé e moral. “As novas gerações são as mais afetadas por essa cultura do consumo em suas aspirações pessoais profundas. Crescem na lógica do individualismo pragmático e narcisista que desperta nelas mundos imaginários especiais de liberdade e igualdade. Afirmam o presente porque o passado perdeu relevância diante de tantas exclusões sociais, políticas e econômicas. Para elas o futuro é incerto. Mesmo assim, participam da lógica da vida como espetáculo considerando o corpo como fonte de referência de sua realidade presente. Têm nova atração pelas sensações e crescem na grande maioria sem referência aos valores e instâncias religiosas.”37 A buscada felicidade, da realização pessoal, da satisfação doindivíduo, que em si são aspirações legítimas e cristãs,tomadas, porém, como absolutas, têm conseqüências negativas sobre as relações sociais, as instituições,os compromissos duradouros, que se tornam frágeis e facilmente descartáveis. A cultura individualista,dissociada dos valores e da ética, está gerando uma cultura de morte.20. Por outro lado, nosso olhar de fé e de esperança também constata aspectos positivos dessa mudança cultural. Entre outros, aparece o valor fundamental da pessoa, de sua liberdade, consciência e experiência,bem como a busca do sentido da vida. Nesse particular,37 DA, n. 51.27 a superação das ideologias permite que a simplicidade e o reconhecimento do fraco e do pequeno surjam como valor. Essa ênfase na apreciação da pessoa abre para nós, discípulos missionários de Jesus Cristo,novos horizontes, nos quais a tradição cristã pode ser retomada.38 A necessidade de construir o próprio destino e o desejo de encontrar razões para a existência podem levar ao encontro com outros para partilhar o vivido, como maneira de dar a si uma resposta. Mas não podemos perder de vista que a ênfase na liberdade e na responsabilidade individual, numa sociedade que promete o acesso a qualquer tipo de bem, convive paradoxalmente com a negação, para às grandes maiorias,dos bens básicos e essenciais para a vida.21. Enquanto discípulos missionários, chamados a encarnar o Evangelho no coração do mundo, percebemos também que a sociedade contemporânea enfraqueceu,e às vezes até eliminou, as comunidades tradicionais. A passagem da agricultura para a indústria provocou uma rápida urbanização e concentrou nas cidades a população,antes dispersa nos campos. Mais recentemente,essa concentração produziu as chamadas megalópoles.O crescimento dos meios de comunicação de massa levou a cidade a exercer uma influência ainda maior,difundindo seus padrões culturais também nas regiões rurais. A grande cidade moderna favorece o contato com uma pluralidade de experiências e de expressões 38 Cf. DA, n. 52.28 culturais, multiplicando as possibilidades de escolha do indivíduo. Este tende a construir, a seu gosto, sua própria identidade. Esta não goza da estabilidade e da nitidez das identidades do passado, carece da solidariedade e do controle próprios de comunidades menores.A aceleração das mudanças contribui também para deixar as pessoas estressadas ou desnorteadas.22. Diante do perigo da massificação, o indivíduo tem,ainda, na família um apoio fundamental, embora ela também esteja menor, reduzida a seu núcleo, mais frágil e exposta a rupturas. Contribuem para fragilizara família: a longa jornada de trabalho fora de casa por parte do pai ou da mãe, a entrega da educação dos filhos a outros, a influência da televisão e da internet na vida das crianças e adolescentes. Além da família,o indivíduo procura sempre mais relações, a partir de sua escolha, por afinidade de interesses. Entre as novas experiências comunitárias, marcadas fortemente por afinidades emocionais, estão também experiências de comunidades e movimentos religiosos, unidos ao redor de uma causa, de um carisma, de um líder e sobretudo de uma acolhida recíproca, cheia de calor humano, que atrai e une os membros do grupo.23. Apesar de circunstâncias adversas, não estamos abandonados à nossa própria sorte. O Senhor da história caminha conosco e nos acompanha com seu Espírito de Vida. Com olhos de fé, ainda que em meio a ambiguidades podemos vê-lo nos movimentos sociais que 29 se articulam em favor de causas mais amplas que as da classe ou do interesse local. Assim, a luta contra as discriminações, a promoção dos direitos da mulher, a preservação do meio ambiente, a defesa dos direitos de culturas e etnias específicas, como a indígena e a afro-brasileira, têm-se revelado como causas capazes de mobilizar grande número de pessoas, muitas delas motivadas pelo próprio Evangelho. A busca da justiça social e de um outro mundo possível, a caminho do Reino definitivo, reúne uma extraordinária e variada a de são de grupos e movimentos. Esse fenômeno manifesta uma consciência planetária e a percepção de que fazemos parte de uma única família universal.Situação econômica 24. A face mais difundida da globalização e tida comode maior êxito é sua dimensão econômica, que se sobrepõe às outras dimensões da vida humana e as condiciona. A dinâmica do mercado absolutiza com facilidade a eficácia e a produtividade como valores reguladores de todas as relações humanas dentro do capitalismo neoliberal. Conduzida por uma ideologia que privilegia o lucro e estimula a concorrência, a globalização segue uma dinâmica de concentração de poder e de riqueza em mãos de poucos. Leva à concentração de recursos físicos, monetários e de informação, produzindo a exclusão de todos aqueles não suficientemente capacitados e informados, aumentando 30 as desigualdades e mantendo na pobreza uma multidão de pessoas.3925. Nessa multidão de pobres e miseráveis, como cristãos inseridos no coração do mundo, somos convidados a localizar rostos concretos,40 de antigas e novas pobrezas,tais como moradores de rua, migrantes, enfermos,dependentes de substâncias químicas e detidos em prisões,41 mulheres excluídas por questões de gênero,etnia e situação socioeconômica; crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e social. Não se trata simplesmente de pobreza, mas de algo novo: da exclusão social. Os novos pobres, hoje, não são somente“explorados”, mas “supérfluos” e “descartáveis”.4226. Outra mudança socioeconômica é o desemprego estrutural,que se caracteriza pela diminuição da mão de-obra empregada na indústria, pela fragmentação do processo produtivo e pela flexibilização das relações de trabalho. Nesse contexto de luta pela sobrevivência,o “salve-se quem puder” ameaça a união dos trabalhadores e seu empenho nas lutas coletivas. O fenômeno do desemprego estrutural é particularmente grave,pela amplitude que alcançou e porque atinge muito diretamente a vida e a dignidade de milhões de pessoas,a começar pelos jovens. Ele destrói a dignidade 39 Cf. DA, n. 61s. 40 Cf. DA, n. 65.41 Cf. DA, n. 184-190.42 Cf. DA, n. 65.31 pessoal, a visão de futuro e o sentido de lealdade e solidariedade. 27. O predomínio dessa tendência concentradora da economia capitalista neoliberal, que privilegia o lucro e limita as possibilidades das pequenas e médias empresas obriga-as a se associarem para garantir sua viabilidade. Sua debilidade, porém, traz consigo a precariedade de emprego que podem oferecer. Sem uma política de proteção específica do Estado face a elas, inspirada no princípio de subsidiariedade, corre se o risco de que as economias de escala dos grandes consórcios terminem por se impor como única forma de terminante de dinamismo econômico.4328. As instituições financeiras e as grandes empresas nacionais e multinacionais se fortalecem a ponto de subordinar as economias locais, debilitando os Estado sem sua capacidade de levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações. As grandes indústrias extrativistas e a agroindústria, com freqüência, não respeitam os direitos das populações locais e não agem responsavelmente face às exigências da ecologia e da preservação dos recursos naturais.4429. As populações rurais, em sua maioria, sofrem as conseqüências da pobreza, agravada pela falta de acesso à terra própria, de financiamento adequado, de condições 43 Cf. DA, n. 63.44 Cf. DA, n. 66.32 gerais de vida digna e de apoio à agricultura familiar. A reforma agrária continua sendo uma exigência diante da escandalosa concentração de terra nas mãos de poucas pessoas e grupos econômicos e da violência no campo.30. São altamente alarmantes os níveis de corrupção na economia, envolvendo tanto o setor público quanto o setor privado. Mais grave é a constatação de que essa corrupção está vinculada ao tráfico de drogas, de armas e de pessoas.31. Fenômeno preocupante é, também, o processo da mobilidade humana, sobretudo causado pela busca de trabalho e de condições melhores de vida. A exploração do trabalho, inclusive infantil, chega, em alguns casos,a gerar condições de verdadeira escravidão. Gera também a vergonhosa exploração sexual, especialmente de crianças e adolescentes. Em nível internacional, o país se priva de mão-de-obra especializada, o que retarda sua independência socioeconômica.4532. Apesar de todas as dificuldades econômicas da grande maioria da população, e da ainda escandalosa disparidade de renda, os últimos anos vêm apontando para melhorias significativas que já estão se configurando como tendências. O desemprego vem caindo e o número de empregos formais crescendo. A renda e o 45 Cf. DA, n. 73.33 consumo da população têm crescido, impulsionando o crescimento da economia. 46 Situação sociopolítica 33. É inquestionável o enfraquecimento da política decorrente das mudanças culturais como a difusão do individualismo e, principalmente, o crescimento do poder dos grandes grupos econômicos, impondo suas decisões e substituindo as instâncias políticas, com riscos para a democracia. Certamente, houve desencantoe diminuição da confiança do povo nos políticos, nas instituições públicas e nos três poderes do Estado; em contrapartida, surgiram novos sinais de esperança e de empenho político, como muitas organizações alternativas,não-governamentais. Também muitas pessoas,inclusive jovens, se reúnem em movimentos sociais,sem vinculação partidária, para defender, com energia,os direitos individuais e para expressar a esperança de um outro mundo possível.34. Constatamos que atualmente na América Latina,depois de uma época de enfraquecimento do Estado devido à aplicação de ajustes estruturais na economia 46 Cf. Pesquisa da financeira Cetel em, financeira do grupo francês PNB Paribas com a Ips os, publicado no jornal O Estado de Minas, dia 02.08.2007:Na clássica distribuição da população em classes, A – B – C – D – E, pela primeira vez na história, o número dos que pertencem à classe C (renda média mensal de R$ 1.100) superou o das classes D e E, constituindo a maioria no Brasil (46% da população contra 39% das classes D e E).34 por recomendação de organismos financeiros internacionais,há uma crescente consciência da sociedade em exigir políticas públicas nos campos da saúde,educação, segurança alimentar, previdência social,acesso à terra e à moradia, criação de empregos e apoio a organizações solidárias.4735. Preocupa-nos, como construtores da paz, que a vida social em convivência harmônica e pacífica está se deteriorando gravemente em nosso país pelo crescimento da violência, que banaliza a vida, manifestada em roubos, assaltos, sequestros e assassinatos. A violência se reveste de várias formas e tem diversos agentes: o crime organizado e o narcotráfico, grupos paramilitares,violência generalizada, tanto na periferia das grandes cidades como no campo, violência de grupos juvenis e crescente violência intra familiar Suas causas são múltiplas e interdependentes, expressões diversas da ausência de Deus no coração de muitas pessoas: a exclusão, a idolatria do dinheiro, o avanço da ideologia individualista e utilitarista, a falta de respeito pela dignidade de cada pessoa, a deterioração do tecido social, a corrupção na esfera pública nos três podere se também no setor privado, as ramificações com organizações internacionais do tráfico de drogas, armas,pessoas, paraísos fiscais e lavagem de dinheiro.48 Particularmente alarmante é a banalização da vida, ferindo 47 Cf. DA, n. 76.48 Cf. DA, n. 78.35 a bioética, que vai desde a manipulação de embriões até a freqüência de homicídios por motivos banais,passando pela difusão do aborto, a insensibilidade ante a saúde dos pobres, a debilitação pela fome e o desamparo dos idosos e crianças. Fator agravante é a falência do sistema penal e da saúde. Diante de tudo isso, nós, cristãos, não podemos calar.Situação ecológica 36. A rica biodiversidade do Brasil, com seus diversos biomas – Amazônia, pantanal, caatinga, cerrado, mata atlântica, pampas –, tem suscitado especial cobiça internacional e tem sido aceleradamente destruída, até mesmo com a ameaça de extinção de suas espécies.A devastação ambiental da Amazônia e agressões à dignidade, à cultura dos povos indígenas, por parte de fortes interesses e grupos econômicos se intensificam.O acervo de conhecimentos tradicionais sobre a utilização dos recursos naturais tem sido objeto de apropriação intelectual ilícita, sendo patenteados por indústrias farmacêuticas e de biogenética.4937. A isso se soma a agressão à natureza, à terra e às águas tratadas como mercadoria negociável, disputada pelas grandes potências.50 A situação é agravada, em contexto mais amplo, pelo aquecimento global, pelo 49 Cf. DA, n. 83.50 Cf. DA, n. 84.36 exaurimento dos recursos naturais e pela exploração predatória do bem comum, que é a natureza, por grupos ávidos de benefícios próprios. Trata-se de conseqüências de um modelo de desenvolvimento econômico capitalista-consumista, que privilegia o mercado financeiro e prioriza o agronegócio. Isso leva à expansão da pecuária extensiva e das monoculturas de soja, eucalipto, cana-de-açúcar, assim como a projetos como o do biocombustível, em detrimento da agricultura familiar, da reforma agrária e de projetos populares como a construção de cisternas, por exemplo,no semi-árido do país.Situação religiosa 38. Chamados a tecer laços de fraternidade, enquanto filhos de um mesmo Pai, vemos que a mentalidade individualista alastrou-se também no campo religioso.O indivíduo, sempre mais, escolhe sua religião num contexto pluralista. Mesmo aderindo a uma tradição ou a uma instituição religiosa, tende a escolher crenças,ritos e normas que lhe agradam subjetivamente ou se refugia numa adesão parcial, com fraco sentido de pertença institucional. Ou, ainda, procura construir,numa espécie de mosaico – sua religião pessoal com fragmentos de doutrinas e práticas de várias religiões.Finalmente, aumenta o número dos que recusam a adesão a qualquer instituição religiosa e consideram suas convicções uma “religião invisível”, com pouca 37ou nenhuma prática exterior. Cresce também a atração por práticas esotéricas, baseadas em falsas doutrinas,afetando a fé cristã.39. Constatamos também a tendência à inversão de sentido da experiência religiosa. Nesse caso, a religião deixa de ser pensada e vivida como uma forma de reconhecimento, adoração e entrega ao Criador, obediência na fé, serviço a Deus e vivência comunitária.É vista numa ótica utilitarista, por oferecer bem-estar interior, terapia ou cura de males, sucesso na vida e nos negócios, como aparece na chamada “teologia da prosperidade”. Nessa modalidade, a religião se torna muito procurada, inclusive pela mídia. Esta acaba por banalizar a religião, reduzi-la a mais um espetáculo para entreter o público. Faz-se presente uma crescente tendência, em alguns setores da sociedade, em admitira prática religiosa apenas na esfera privada, em base a uma sociedade laicista, criticando as manifestações da Igreja em matéria de moral e presença na vida pública.40. Há igualmente, em novas expressões religiosas, uma tendência generalizada, inclusive por influência decertos psicólogos, a afirmar sem mais a inocência dos indivíduos, de modo que ninguém deve se sentir pecador ou culpado. Outros grupos religiosos atribuem toda a culpa aos demônios ou aos espíritos malignos.Há, todavia, movimentos religiosos autônomos que,através de proselitismo, enganam com a chamada “te38 ologia da prosperidade”. Conseqüentemente, ninguém se sente responsável por corrigir o que está errado na sociedade, na qual convivem, estranhamente, muita religiosidade e muita criminalidade, busca de Deus e injustiça.41. Essas tendências, no Brasil, apareceram nos dados do Censo 2000, que evidenciam também a diversidade das situações regionais: metrópoles e mundo rural,litoral e interior, Nordeste e outras grandes áreas. 51 Pesquisas mais recentes do IBGE e da Fundação Getúlio Vargas trazem novos dados à reflexão,52 mas que precisam ser avaliados com prudência. Por exemplo, o Censo pergunta pela religião do entrevistado. Ora, um bom número de brasileiros frequenta atos religiosos 51 “Os principais dados relativos à questão ‘religião’ são três: a) A diminuição da porcentagem dos cristãos católicos, de 83,3% (1991) para 73,9% (2000);essa diminuição, de quase dez pontos percentuais em nove anos, foi muito rápida, se considerarmos que uma diminuição semelhante aconteceu, anteriormente,num prazo de noventa anos (de 98,9% em 1890 para 89,0% em 1980); b) O aumento da porcentagem dos cristãos evangélicos, de 9,0%(1991) para 15,6% (2000); c) O aumento dos que se declararam ‘sem religião’, que passaram de 4,7% da população (1991) para 7,4% (2000),ou de 7 milhões para 12,5 milhões” (Cf. CNBB. Doc. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: 2003-2006, n. 56. São Paulo,Paulinas, 2003).52 Pela primeira vez desde 1872, a diminuição do número de católicos teve um estancamento entre 2000 e 2003 (73,89% – 73,79%). Os que se declaravam sem religião caem de 7,4% para 5,1%. Os evangélicos (conjuntamente tradicionais e pentecostais) seguem seu crescimento, passando de 16,2%para 17,9%. O crescimento dos evangélicos tradicionais está se dando a taxas mais aceleradas que os evangélicos pentecostais, sendo essa outra novidade a ser ressaltada.39 de várias denominações.53 Além disso, uma pesquisa qualitativa mostraria que há muitos modos de crer e de praticar dentro do próprio catolicismo, no mundo evangélico ou em outras religiões.42. Outra observação importante é que os dados sobre religião podem ser comparados com outros dados do Censo, como diminuição da natalidade, aumento das uniões consensuais sem legalização, aumento da escolaridade etc. Todos esses dados apontam para uma modernização dos hábitos da população brasileira e para um crescimento do individualismo e do subjetivismo.43. Também não parece exato dizer que o país se tornou menos religioso. As pesquisas recentes mostram que a religiosidade continua alta entre os brasileiros. A declaração “sem religião” parece indicar mais uma“des-institucionalização” da religião e a emergência da chamada “religião invisível”. O indivíduo não adere mais a uma religião institucionalizada, mas não deixa de acreditar em Deus e de rezar, ocasionalmente. Não obstante, não podemos desconhecer a existência de pessoas que se dizem ateias 44. No catolicismo contemporâneo existe um bom número elevado de fiéis que, como batizados e crismados, se 53 A pesquisa do CERIS, em 2002, nas seis maiores regiões metropolitanas brasileiras, encontrou cerca de 25% dos entrevistados que frequentam atos de mais de uma religião e cerca de metade deles (12,5% do total) o fazem sempre. 40 dedicam muitas horas por semana ao trabalho pastoral ou à evangelização. Certamente tem influenciado nessa realidade a crescente consciência da missão evangelizadora da Igreja no Brasil, impulsionada por diretrizes,documentos do episcopado brasileiro e constante trabalho nos serviços e organismos de pastoral, nas CEBs, nas associações e nos movimentos eclesiais enovas comunidades. Igualmente, sucessivos Projetos Nacionais de Evangelização da CNBB 54 têm ajuda do missionariamente os esforços de renovação de nossas paróquias, pastorais, comunidades e movimentos.Deve-se lembrar ainda a crescente presença da Igreja na mídia.45. No campo religioso, constatamos ainda que muitas Igrejas, que se denominam evangélicas, mostram-se dinâmicas na procura de novos fiéis, chegando até ao proselitismo. Cabe, porém, uma avaliação da qualidade de nossa presença junto ao povo, como exigência da própria missão de evangelizar. A organização da Igreja Católica está muito dependente do padre e da paróquia.Ora, o número dos padres não tem crescido no mesmo ritmo que o da população.55 Por isso, podemos nos perguntar se, diante das mudanças socioculturais, as estruturas pastorais e o atendimento da Igreja Católica 54 Como, por exemplo, os projetos “Rumo ao Novo Milênio”, “Ser Igreja no Novo Milênio”, “Queremos Ver Jesus”.55 Em 1970 havia um padre para 7.100 habitantes; em 1990, um padre para 10.100 habitantes. Desde então, essa proporção deficitária de padres/habitantes se mantém estável. 41 conseguiram alcançar adequadamente, por exemplo,as populações nas periferias metropolitanas, nas fronteiras agrícolas e na região Amazônica.46. Diante disso, acolhendo a conclamação da Conferência de Aparecida, nossas comunidades eclesiais são chamadas a uma verdadeira conversão pastoral. Essa conversão exige que se vá para além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária.56 Uma verdadeira conversão pastoral deve estimular-nos e inspirar-nos atitudes e iniciativas de auto-avaliação e coragem de mudar várias estruturas pastorais em todos os níveis, serviços, organismos,movimentos e associações. Temos necessidade urgente de viver na Igreja a paixão que norteia a vida de Jesus Cristo: o Reino de Deus, fonte de graça, justiça, paz e amor. Por esse Reino, o Senhor deu a vida.56 Cf. DA, n. 370.
Assembléia Geral
Itaici – Indaiatuba, SP,
de 2 a 11 de abril de 2008
Objetivo geral
Evangelizar,a partir do encontro com Jesus Cristo,como discípulos missionários,à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres,promovendo a dignidade da pessoa,renovando a comunidade,participando da construção de uma sociedade justa e solidária,“para que todos tenham Vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
9 Apresentação Esperadas há um ano, enraizadas na realidade, nutridas com a memória da caminhada, banhadas no acontecimento de Aparecida, elaboradas em espírito de comunhão fraterna por pessoas que, na força do Espírito e a partir do chamado a um encontro pessoal com Jesus Cristo, querem ser seus(as) discípulos(as) missionários(as) para que, nele,nossos povos tenham vida: eis as novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil.Sucessivos encontros nos mais diversos níveis foram dando forma, conteúdo e vida a este decisivo instrumento da pastoral orgânica da Igreja em nosso país.Foi na 46a Assembléia Geral dos Bispos do Brasil,em Itaici, de 2 a 11 de abril de 2008, que as Diretrizes Gerais ocuparam o lugar do tema central, o mais importante.O texto preparatório, já remodelado por muitas emendas e sugestões, foi distribuído, estudado pessoalmente e em grupo; revisto, discutido, votado e aprovado.É bom esclarecer que, pela seqüência do calendário,a elaboração das Diretrizes já deveria ter sido efetuada na Assembléia de 2007. Tendo em vista, porém, a realização da V Conferência Geral dos Bispos da América Latina e do Caribe, em maio de 2007, a definição das Diretrizes foi protelada por um ano, exatamente para incorporar as contribuições de Aparecida.10 Desse modo, uniram-se em harmonia duas vertentes.De um lado, a tradição da pastoral orgânica no Brasil,suscitada desde o Plano de Emergência, passando pelos Planos da Pastoral de Conjunto, chegando até as Diretrizes Gerais. Do outro lado, o Documento e o Acontecimento de Aparecida, com suas intuições, com suas luzes e com sua inestimável experiência. Este último, por sua vez, indicava:“As Conferências Episcopais ou outros organismos locais avancem em considerações mais amplas, concretas e adaptadas às necessidades do próprio território” (Documento de Aparecida, n. 431).De fato, a graça de ser discípulo-missionário pelo encontro pessoal com Cristo, o sentido da vida encontradona comunhão da comunidade, o despertar da alegria da missão permanente para a vida, vêm infundir novo ânimo ao serviço da caridade, ao anúncio da Palavra e à celebração na liturgia. É assim que a missão se revigora na acolhida da pessoa, na renovação da comunidade e na construção de uma sociedade mais justa e solidária.Talvez muitos hão de perguntar: por que, desta vez,o período da vigência das novas Diretrizes é só de três anos(2008-2010)? É que, na organização da CNBB, a Assembléia elabora primeiro as Diretrizes. Depois, escolhe aqueles que deverão colaborar mais diretamente para colocá-la sem prática, ou seja, a Presidência e os membros do CONSEP– Conselho Episcopal Pastoral. Dada a espera pela V Conferência de Aparecida, estas Diretrizes durarão um ano 11a menos, podendo, porém, ser prorrogadas no momento oportuno, por mais quatro anos, se a Assembléia Geral dos Bispos assim o decidir.É importante notar que as Diretrizes não são um documento a mais. São o Documento-Chave para a leitura e aplicação de todos os demais. Em meio a tantos artigos,textos, documentos e estudos de diversas pessoas, organismos,movimentos e pastorais, elas são imprescindíveis para todos os que se alegram em assumir a Missão Evangelizadora:Comissões Episcopais, Dioceses, redes de comunidades,organismos, movimentos, congregações, em suma todos os agentes de pastoral. Assim, se constrói a unidade respeitando e valorizando as diferenças, bem como evitando a dispersão de esforços e iniciativas. Com isso, não se desvaloriza nenhuma atividade pessoal nem se desmerece nenhum carisma especial. Antes, eles são reforçados, partilhados,comunicados, e a Igreja, Povo de Deus e Corpo de Cristo, é edificada e apresentada como testemunho digno de credibilidade do Plano de Amor do Pai.Ao apresentarmos estas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil agradecemos a todos os que participaram na sua elaboração e conclamamos a todos adarmo-nos as mãos para traduzir as palavras em vida, os desafios em entusiasmo e os propósitos em concretização.Em toda a Ação Evangelizadora esteja presente agraça da Trindade Santa em nome de quem iniciamos toda a prece e de quem recebemos toda a inspiração para viver como discípulos missionários.12 Maria, Mãe da Igreja, em cujo Santuário em Aparecida fomos retemperados para a missão permanente, nos ajude com seu exemplo e sua materna proteção.Brasília, 25 de abril de 2008.Festa de São Marcos Evangelista Dom Dimas Lara Barbosa Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro - RJSecretário Geral da CNBB13 Introdução1. No espírito do grande evento de graça da Conferênciade Aparecida, apresentamos estas Diretrizes, a fim deque a Igreja no Brasil viva uma forte comoção e experimente a alegria de ser discípula missionária, para que nossos povos em Cristo tenham Vida.2. Ao Pai de todos os dons, agradecemos a graça da fée a missão que ele confia à sua Igreja no Brasil. A fénos permite contemplar a realidade com os olhos de Jesus Cristo e nos ilumina em nosso peregrinar por este mundo, tão carente de referências sólidas e dominadopor um relativismo envolvente. Essa fé nos permite descobrir que nunca atravessamos a aventura da vida humana sozinhos, mas sempre acompanhados, inspiradose fortalecidos pelo Espírito que o Pai, por Cristo,nos envia. Essa fé nos capacita a assumir a missão de Jesus Cristo de realizar, na história, o Reino de Deus,proclamando-o com nossas palavras e testemunhando o em nossa vida.3. Agradecemos a Deus a comunidade eclesial que nos acolheu e que nos alimenta com a Palavra de Deus ecom os sacramentos, com o exemplo de seus membros,com a presença de Maria Santíssima e dos santos e santas. Agradecemos a dedicação de tantos presbíteros,diáconos, religiosos e religiosas, cristãos leigos e leigas que, com generosidade, se consagraram ao serviço do 14 Reino de Deus. Reconhecemos e agradecemos a fé simples e firme dos pobres, seu amor à Mãe de Deus, à Igreja Católica, seu exemplo de partilha e solidariedade numa cultura individualista voltada para os bens materiais.Agradecemos a todos aqueles que, no exercício de sua profissão, no mundo da política e da cultura,têm lutado pela promoção humana e pela defesa da vida. Reconhecemos a cooperação, participação e abnegada dedicação das mulheres na Igreja e na sociedade,em sua busca de participação efetiva “na vida eclesial, familiar, cultural, social e econômica, criando espaços e estruturas que favoreçam maior inclusão”.1 Agradecemos por podermos contribuir, como Igreja,para a promoção dos excluídos da sociedade tornando a humanidade mais solidária, justa e fraterna, seguindo a mensagem evangélica.4. Essa é a razão de ser da alegria que experimentamos por sermos discípulos missionários de Jesus Cristo,chamados e abençoados por Deus desde toda a eternidade.2 Alegria de sermos cristãos, movidos pela esperança que não decepciona, instrumentos de Deus para levar essa alegria da fé a nossos contemporâneos,muitos deles desorientados na atual sociedade pluralista.Temos a convicção de que “conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber;tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas 1 DA, n. 454.2 Ef 1,3.15 vidas; e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria”.35. Numa época de profundas e sucessivas mudanças socioculturais que afetam nosso mundo, trazendo novos e sérios desafios, a Igreja é chamada a proclamar com coragem, entusiasmo e criatividade a mensagem perene do Evangelho, para que nossos povos “tenham vida e a tenham em abundância”,4 a qual consiste em acolhermos a oferta que Deus nos oferece em Jesus Cristo, para assim participarmos de sua própria vida trinitária.5 “Essa vida nova de Jesus Cristo atinge oser humano por inteiro e desenvolve em plenitude a existência humana em sua dimensão pessoal, familiar,social e cultural.”6 Toda a missão de Jesus Cristo consistiu em levar à humanidade essa vida divina manifestada em suas palavras 7 e concretizada em suas ações. O Reino que ele proclamava era de fato um Reino de Vida.6. O conteúdo central da missão é levar vida plena a todos, e toda a atividade missionária é compromisso e empenho por uma vida mais digna em Cristo.8 “Porém,as condições de vida de muitos abandonados, excluídos 3 DA, n. 29.4 Jo 10,10.5 Cf. 2Pd 1,4.6 DA, n. 356.7 Cf. Jo 6,68.8 Cf. DA, n. 361.16 e ignorados em sua miséria e dor contradizem esse projeto do Pai e desafiam os cristãos a maior compromisso a favor da cultura da vida.”9 Pois o amor a Deusse mostra autêntico no amor ao próximo e, sobretudo,ao próximo em necessidade.10 Daí, ser “o serviço de caridade entre os pobres um campo de atividade que caracteriza de maneira decisiva a vida cristã, o estilo eclesial e a programação pastoral”.117. Essa evangelização é tarefa de todos os fiéis, chamado sem virtude de seu Batismo a serem discípulos missionários de Jesus Cristo.12 De modo especial o laicato,devidamente formado, deve “atuar como verdadeiro sujeito eclesial”.13 Todo cristão só faz jus a esse nome enquanto acolhe a pessoa de Jesus Cristo e assume sua missão pelo Reino.14 Só assim ele transforma sua vida,orientando-a pelo estilo de vida do próprio Jesus.15 “Amissão não é tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã.”16 “Ela não se limita a um programa ou projeto, mas é compartilhar a experiência do acontecimento do encontro com Cristo, testemunhá-lo e 9 DA, n. 358.10 Cf. Mt 25,40.11 DA, n. 394.12 Cf. Bento XVI. DA: Discurso Inaugural, n. 3.13 DA, n. 497.14 DA, n. 144.15 DA, n. 131; 139.16 DA, n. 144.17 anunciá-lo de pessoa a pessoa”,17 tornando “visível o amor misericordioso do Pai, especialmente para com os pobres e pecadores”.188. O desempenho da missão evangelizadora pede, de cada um de nós, uma profunda vivência de fé, fruto de uma experiência pessoal de encontro com a pessoa de Jesus Cristo, em seu seguimento. Nossa conversão pessoal nos possibilita impregnar com uma “firme decisão missionária todas as estruturas eclesiais e todos os planos pastorais […] de qualquer instituição da Igreja”,19 exigindo nossa conversão pastoral, que implica escuta e fidelidade ao Espírito,20 impelindo-nos à missão e sensibilidade às mudanças socioculturais,animada por “uma espiritualidade de comunhão e participação”.219. Cada diocese será uma “comunidade missionária”22 à medida que não fortalecer apenas sua consciência missionária,com gestos concretos de ida ao encontro dos outros, mas também responder aos grandes problemas da sociedade onde se encontra.23 Esses desafios exigem 17 DA, n. 145.18 DA, n. 147.19 DA, n. 365.20 DA, n. 366.21 DA, n. 368.22 João Paulo II. ChL, n. 32.23 DA, n. 168.18“imaginação e criatividade para chegar às multidões”.24 Em se considerando a cultura urbana, é preciso um estilo pastoral adequado que atinja as pessoas através de práticas pastorais e estruturas evangelizadoras.25 De modo especial, pois que os pobres são a maioria da população, a Igreja deverá assumir mais efetivamente o desafio missionário com o espírito evangélico que a anima, sendo realmente a “casa dos pobres”.2610. Estamos conscientes de nossos limitados recursos materiais, bem como da insuficiência de agentes de pastoral para respondermos devidamente a esses apelos do Espírito. Mas não esmorecemos nem desanimamos,pois somos animados pelo mesmo Espírito que impeliu os apóstolos, em circunstâncias mais adversas que as nossas, a proclamarem corajosamente o Evangelho de Deus, o Cristo Ressuscitado, nossa Páscoa. Imploramos também a ajuda da Mãe de Deus, Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, tão querida por nosso povo, para que nos acompanhe na missão evangelizadora que seu Filho nos confia.11. Nos capítulos seguintes examinaremos, primeiramente,em seus aspectos fundamentais, a realidade quenos interpela e à qual vai mais concretamente dirigida nossa missão. Trata-se de uma exposição descritiva que pretende apenas mencionar os elementos de cunho cul-24 DA, n. 173.25 DA, n. 518a.26 DA, n. 8.19tural, social, econômico, político, ético e religioso mais marcantes na atual sociedade brasileira. Em seguida, a iluminação teológica apontará e explicitará as quatro exigências intrínsecas da evangelização: o serviço, o diálogo, o anúncio e o testemunho de comunhão. A ação evangelizadora acolhe essas exigências e se realiza através do tríplice múnus: ministério da Palavra,ministério da liturgia e ministério da caridade. Também nesse mesmo capítulo, se apresentará a vocação do discípulo missionário, sua formação, bem como a Igreja como comunidade missionária. No terceiro capítulo veremos as pistas de ação pastoral que nortearão a Igreja no Brasil para os próximos anos. Finalmente,na conclusão, abordaremos a Missão Continental em nosso país.
21 Capítulo I A realidade que nos interpela 12. Nosso olhar sobre a realidade brasileira, como discípulos missionários de Jesus Cristo, se dá em meio aluzes e sombras de nosso tempo. As grandes mudanças“nos afligem, mas não nos confundem”.27 Antes,desafiam-nos “a discernir os ‘sinais dos tempos’ à luzdo Espírito Santo, para nos colocar a serviço do Reino,anunciado por Jesus, que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância”.28 A principal luz anos iluminar no discernimento dos sinais dos tempos é a do Espírito de Deus. Aproveitamos a contribuição das ciências sociais e humanas, na medida em que nos fazem conhecer melhor a realidade em que vivemos e clareiam suas causas.13. A novidade das profundas transformações, que acontecem também em nosso país, diferentemente do ocorrido em outras épocas, têm alcance global que,com diferenças e matizes, afetam o mundo inteiro,atingindo todas as dimensões da vida humana. “Um fator determinante dessas mudanças é a ciência e a tecnologia, com sua capacidade de manipular geneticamente a própria vida dos seres vivos, e com sua 27 DA, n. 20.28 DA, n. 33.22 capacidade de criar uma rede de comunicações de alcance mundial, tanto pública como privada, para interagirem tempo real, ou seja, com simultaneidade, não obstante as distâncias geográficas. Como se costuma dizer, a história se acelerou e as próprias mudanças se tornam vertiginosas, visto que se comunicam com grande velocidade a todos os cantos do planeta”,29 configurando uma mudança de época, mais que uma época de mudanças.3014. Como discípulos missionários não vamos, aqui, fazer uma análise meramente científica do contexto de nossa missão evangelizadora. Interessa-nos como discípulos missionários de Jesus Cristo em sua Igreja “saber como esse fenômeno afeta a vida de nossos povos e o sentido religioso e ético de nossos irmãos que buscam infatigavelmente o rosto de Deus e, que, no entanto,devem fazê-lo agora desafiados por novas linguagens do domínio técnico, que nem sempre revelam, mas que também ocultam o sentido divino da vida humana redimida em Cristo”.31 Neste novo contexto sociocultural,“a realidade para o ser humano tornou-se cada vez mais sem brilho e complexa”, ensinando-nos a olhá-la “com mais humildade, sabendo que ela é maior e mais complexa que as simplificações com que costumávamos vê-la em passado ainda não muito distante”.3229 DA, n. 34.30 Cf. DA, n. 44.31 DA, n. 35.32 DA, n. 36.23 Situação sociocultural 15. É o sentido que unifica toda a experiência humana.O contexto sociocultural contemporâneo comprovao fenômeno de uma crescente fragmentação dos referenciais de sentido e relativização dos valores,gerando critérios parciais e múltiplos na consideração das realidades da vida, nas opções religiosas e nos relacionamentos pessoais. Tornou-se difícil percebera unidade de todos os fragmentos dispersos que nos chegam. No entanto, na medida em que nenhum desses critérios parciais consegue nos oferecer um significado adequado a toda a realidade, gera-se uma crise de sentido, levando as pessoas a sentirem-se frustradas,ansiosas e angustiadas pela dificuldade de poder influir nos acontecimentos.3316. Habitualmente esse sentido global, capaz de unificar os diferentes fragmentos, vem das tradições culturais,principalmente religiosas. No entanto, essas tradições estão-se diluindo, sobretudo em seu núcleo mais profundo, constituído pela experiência religiosa devida no interior da família. Os meios de comunicação invadiram todos os espaços e todas as conversas,introduzindo-se na intimidade do lar. Competindo com a sabedoria das tradições, deparamo-nos com a informação de último minuto, a distração, o entretenimento,as imagens dos vencedores que souberam 33 Cf. DA, n. 36.24 usar das ferramentas tecnológicas e das expectativas de prestígio e estima social. A falta de verdadeira informação,que se busca suprir com novas informações,intensifica a ansiedade de quem percebe que está em um mundo opaco, que não compreende.3417. No campo cultural, apesar de aspectos positivos da globalização – maior produção e circulação de bens,facilidade de comunicação, progressos tecnológicos–, a impressão que prevalece na opinião pública,inclusive nos países mais ricos, os mais beneficiados pela globalização, é de desencanto.35 Ela provoca crescimento econômico muito desigual, favorável para alguns países, fraco ou até negativo para outros.Particularmente prejudicial aos países em desenvolvimento tem sido a circulação de capitais especulativos sempre em busca de maior lucro, que repentinamente abandonam esses países e os condenam a crises profundas.Não se percebe com clareza um Projeto de Nação, com substancial diminuição das desigualdades;antes, elas parecem ter aumentado tanto no interior de um mesmo país como entre as diversas nações. Em nossa sociedade, em lugar da segurança e do progresso prometidos, a globalização provocou um aumento sensível de riscos. Temem-se as catástrofes climáticas e ecológicas, conseqüência da intervenção humana 34 Cf. DA, n. 42.35 Cf. CNBB. Doc. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: 2003-2006, n. 46. São Paulo, Paulinas, 2003; João Paulo II. Em n. 20.25 sem limites, agressiva ao meio ambiente. Temem-se também possíveis desastres químicos e atômicos. A violência e o terrorismo crescentes são sentidos por todos. Mesmo quem não se preocupa com esses fenômenos mundiais teme pela violência cotidiana e por seu posto de trabalho, vivendo na insegurança de seu futuro e de sua família.18. Diante das incertezas e do risco, as pessoas buscam uma satisfação imediata. E a atual sociedade mantémaceso o desejo de consumo, criando artificialmente novas necessidades, e dando a impressão enganosa de que cada um pode escolher e comprar o que quiser. “A avidez do mercado descontrola o desejo de crianças,jovens e adultos. A publicidade conduz ilusoriamente a mundos distantes e maravilhosos, onde todo o desejo pode ser satisfeito pelos produtos que têm caráter eficaz, efêmero e até messiânico. Legitima-se que os desejos se tornem felicidade. Como só se necessita do imediato, pretende-se alcançar a felicidade através dobem-estar econômico e da satisfação hedonista.”3619. Na esfera da vida privada, com graves conseqüências para a vivência cristã, predomina a mentalidade segundo a qual cada um se julga absolutamente dono de suas decisões, aceitando cada vez menos as orientações da sociedade, mesmo os imperativos éticos mais elementares, gerando um clima de permissividade e de sensualidade. Encontra-se entre nós 36 DA, n. 50.26a generalizada convicção que nega o nexo intrínseco e indivisível entre fé e moral. “As novas gerações são as mais afetadas por essa cultura do consumo em suas aspirações pessoais profundas. Crescem na lógica do individualismo pragmático e narcisista que desperta nelas mundos imaginários especiais de liberdade e igualdade. Afirmam o presente porque o passado perdeu relevância diante de tantas exclusões sociais, políticas e econômicas. Para elas o futuro é incerto. Mesmo assim, participam da lógica da vida como espetáculo considerando o corpo como fonte de referência de sua realidade presente. Têm nova atração pelas sensações e crescem na grande maioria sem referência aos valores e instâncias religiosas.”37 A buscada felicidade, da realização pessoal, da satisfação doindivíduo, que em si são aspirações legítimas e cristãs,tomadas, porém, como absolutas, têm conseqüências negativas sobre as relações sociais, as instituições,os compromissos duradouros, que se tornam frágeis e facilmente descartáveis. A cultura individualista,dissociada dos valores e da ética, está gerando uma cultura de morte.20. Por outro lado, nosso olhar de fé e de esperança também constata aspectos positivos dessa mudança cultural. Entre outros, aparece o valor fundamental da pessoa, de sua liberdade, consciência e experiência,bem como a busca do sentido da vida. Nesse particular,37 DA, n. 51.27 a superação das ideologias permite que a simplicidade e o reconhecimento do fraco e do pequeno surjam como valor. Essa ênfase na apreciação da pessoa abre para nós, discípulos missionários de Jesus Cristo,novos horizontes, nos quais a tradição cristã pode ser retomada.38 A necessidade de construir o próprio destino e o desejo de encontrar razões para a existência podem levar ao encontro com outros para partilhar o vivido, como maneira de dar a si uma resposta. Mas não podemos perder de vista que a ênfase na liberdade e na responsabilidade individual, numa sociedade que promete o acesso a qualquer tipo de bem, convive paradoxalmente com a negação, para às grandes maiorias,dos bens básicos e essenciais para a vida.21. Enquanto discípulos missionários, chamados a encarnar o Evangelho no coração do mundo, percebemos também que a sociedade contemporânea enfraqueceu,e às vezes até eliminou, as comunidades tradicionais. A passagem da agricultura para a indústria provocou uma rápida urbanização e concentrou nas cidades a população,antes dispersa nos campos. Mais recentemente,essa concentração produziu as chamadas megalópoles.O crescimento dos meios de comunicação de massa levou a cidade a exercer uma influência ainda maior,difundindo seus padrões culturais também nas regiões rurais. A grande cidade moderna favorece o contato com uma pluralidade de experiências e de expressões 38 Cf. DA, n. 52.28 culturais, multiplicando as possibilidades de escolha do indivíduo. Este tende a construir, a seu gosto, sua própria identidade. Esta não goza da estabilidade e da nitidez das identidades do passado, carece da solidariedade e do controle próprios de comunidades menores.A aceleração das mudanças contribui também para deixar as pessoas estressadas ou desnorteadas.22. Diante do perigo da massificação, o indivíduo tem,ainda, na família um apoio fundamental, embora ela também esteja menor, reduzida a seu núcleo, mais frágil e exposta a rupturas. Contribuem para fragilizara família: a longa jornada de trabalho fora de casa por parte do pai ou da mãe, a entrega da educação dos filhos a outros, a influência da televisão e da internet na vida das crianças e adolescentes. Além da família,o indivíduo procura sempre mais relações, a partir de sua escolha, por afinidade de interesses. Entre as novas experiências comunitárias, marcadas fortemente por afinidades emocionais, estão também experiências de comunidades e movimentos religiosos, unidos ao redor de uma causa, de um carisma, de um líder e sobretudo de uma acolhida recíproca, cheia de calor humano, que atrai e une os membros do grupo.23. Apesar de circunstâncias adversas, não estamos abandonados à nossa própria sorte. O Senhor da história caminha conosco e nos acompanha com seu Espírito de Vida. Com olhos de fé, ainda que em meio a ambiguidades podemos vê-lo nos movimentos sociais que 29 se articulam em favor de causas mais amplas que as da classe ou do interesse local. Assim, a luta contra as discriminações, a promoção dos direitos da mulher, a preservação do meio ambiente, a defesa dos direitos de culturas e etnias específicas, como a indígena e a afro-brasileira, têm-se revelado como causas capazes de mobilizar grande número de pessoas, muitas delas motivadas pelo próprio Evangelho. A busca da justiça social e de um outro mundo possível, a caminho do Reino definitivo, reúne uma extraordinária e variada a de são de grupos e movimentos. Esse fenômeno manifesta uma consciência planetária e a percepção de que fazemos parte de uma única família universal.Situação econômica 24. A face mais difundida da globalização e tida comode maior êxito é sua dimensão econômica, que se sobrepõe às outras dimensões da vida humana e as condiciona. A dinâmica do mercado absolutiza com facilidade a eficácia e a produtividade como valores reguladores de todas as relações humanas dentro do capitalismo neoliberal. Conduzida por uma ideologia que privilegia o lucro e estimula a concorrência, a globalização segue uma dinâmica de concentração de poder e de riqueza em mãos de poucos. Leva à concentração de recursos físicos, monetários e de informação, produzindo a exclusão de todos aqueles não suficientemente capacitados e informados, aumentando 30 as desigualdades e mantendo na pobreza uma multidão de pessoas.3925. Nessa multidão de pobres e miseráveis, como cristãos inseridos no coração do mundo, somos convidados a localizar rostos concretos,40 de antigas e novas pobrezas,tais como moradores de rua, migrantes, enfermos,dependentes de substâncias químicas e detidos em prisões,41 mulheres excluídas por questões de gênero,etnia e situação socioeconômica; crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e social. Não se trata simplesmente de pobreza, mas de algo novo: da exclusão social. Os novos pobres, hoje, não são somente“explorados”, mas “supérfluos” e “descartáveis”.4226. Outra mudança socioeconômica é o desemprego estrutural,que se caracteriza pela diminuição da mão de-obra empregada na indústria, pela fragmentação do processo produtivo e pela flexibilização das relações de trabalho. Nesse contexto de luta pela sobrevivência,o “salve-se quem puder” ameaça a união dos trabalhadores e seu empenho nas lutas coletivas. O fenômeno do desemprego estrutural é particularmente grave,pela amplitude que alcançou e porque atinge muito diretamente a vida e a dignidade de milhões de pessoas,a começar pelos jovens. Ele destrói a dignidade 39 Cf. DA, n. 61s. 40 Cf. DA, n. 65.41 Cf. DA, n. 184-190.42 Cf. DA, n. 65.31 pessoal, a visão de futuro e o sentido de lealdade e solidariedade. 27. O predomínio dessa tendência concentradora da economia capitalista neoliberal, que privilegia o lucro e limita as possibilidades das pequenas e médias empresas obriga-as a se associarem para garantir sua viabilidade. Sua debilidade, porém, traz consigo a precariedade de emprego que podem oferecer. Sem uma política de proteção específica do Estado face a elas, inspirada no princípio de subsidiariedade, corre se o risco de que as economias de escala dos grandes consórcios terminem por se impor como única forma de terminante de dinamismo econômico.4328. As instituições financeiras e as grandes empresas nacionais e multinacionais se fortalecem a ponto de subordinar as economias locais, debilitando os Estado sem sua capacidade de levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações. As grandes indústrias extrativistas e a agroindústria, com freqüência, não respeitam os direitos das populações locais e não agem responsavelmente face às exigências da ecologia e da preservação dos recursos naturais.4429. As populações rurais, em sua maioria, sofrem as conseqüências da pobreza, agravada pela falta de acesso à terra própria, de financiamento adequado, de condições 43 Cf. DA, n. 63.44 Cf. DA, n. 66.32 gerais de vida digna e de apoio à agricultura familiar. A reforma agrária continua sendo uma exigência diante da escandalosa concentração de terra nas mãos de poucas pessoas e grupos econômicos e da violência no campo.30. São altamente alarmantes os níveis de corrupção na economia, envolvendo tanto o setor público quanto o setor privado. Mais grave é a constatação de que essa corrupção está vinculada ao tráfico de drogas, de armas e de pessoas.31. Fenômeno preocupante é, também, o processo da mobilidade humana, sobretudo causado pela busca de trabalho e de condições melhores de vida. A exploração do trabalho, inclusive infantil, chega, em alguns casos,a gerar condições de verdadeira escravidão. Gera também a vergonhosa exploração sexual, especialmente de crianças e adolescentes. Em nível internacional, o país se priva de mão-de-obra especializada, o que retarda sua independência socioeconômica.4532. Apesar de todas as dificuldades econômicas da grande maioria da população, e da ainda escandalosa disparidade de renda, os últimos anos vêm apontando para melhorias significativas que já estão se configurando como tendências. O desemprego vem caindo e o número de empregos formais crescendo. A renda e o 45 Cf. DA, n. 73.33 consumo da população têm crescido, impulsionando o crescimento da economia. 46 Situação sociopolítica 33. É inquestionável o enfraquecimento da política decorrente das mudanças culturais como a difusão do individualismo e, principalmente, o crescimento do poder dos grandes grupos econômicos, impondo suas decisões e substituindo as instâncias políticas, com riscos para a democracia. Certamente, houve desencantoe diminuição da confiança do povo nos políticos, nas instituições públicas e nos três poderes do Estado; em contrapartida, surgiram novos sinais de esperança e de empenho político, como muitas organizações alternativas,não-governamentais. Também muitas pessoas,inclusive jovens, se reúnem em movimentos sociais,sem vinculação partidária, para defender, com energia,os direitos individuais e para expressar a esperança de um outro mundo possível.34. Constatamos que atualmente na América Latina,depois de uma época de enfraquecimento do Estado devido à aplicação de ajustes estruturais na economia 46 Cf. Pesquisa da financeira Cetel em, financeira do grupo francês PNB Paribas com a Ips os, publicado no jornal O Estado de Minas, dia 02.08.2007:Na clássica distribuição da população em classes, A – B – C – D – E, pela primeira vez na história, o número dos que pertencem à classe C (renda média mensal de R$ 1.100) superou o das classes D e E, constituindo a maioria no Brasil (46% da população contra 39% das classes D e E).34 por recomendação de organismos financeiros internacionais,há uma crescente consciência da sociedade em exigir políticas públicas nos campos da saúde,educação, segurança alimentar, previdência social,acesso à terra e à moradia, criação de empregos e apoio a organizações solidárias.4735. Preocupa-nos, como construtores da paz, que a vida social em convivência harmônica e pacífica está se deteriorando gravemente em nosso país pelo crescimento da violência, que banaliza a vida, manifestada em roubos, assaltos, sequestros e assassinatos. A violência se reveste de várias formas e tem diversos agentes: o crime organizado e o narcotráfico, grupos paramilitares,violência generalizada, tanto na periferia das grandes cidades como no campo, violência de grupos juvenis e crescente violência intra familiar Suas causas são múltiplas e interdependentes, expressões diversas da ausência de Deus no coração de muitas pessoas: a exclusão, a idolatria do dinheiro, o avanço da ideologia individualista e utilitarista, a falta de respeito pela dignidade de cada pessoa, a deterioração do tecido social, a corrupção na esfera pública nos três podere se também no setor privado, as ramificações com organizações internacionais do tráfico de drogas, armas,pessoas, paraísos fiscais e lavagem de dinheiro.48 Particularmente alarmante é a banalização da vida, ferindo 47 Cf. DA, n. 76.48 Cf. DA, n. 78.35 a bioética, que vai desde a manipulação de embriões até a freqüência de homicídios por motivos banais,passando pela difusão do aborto, a insensibilidade ante a saúde dos pobres, a debilitação pela fome e o desamparo dos idosos e crianças. Fator agravante é a falência do sistema penal e da saúde. Diante de tudo isso, nós, cristãos, não podemos calar.Situação ecológica 36. A rica biodiversidade do Brasil, com seus diversos biomas – Amazônia, pantanal, caatinga, cerrado, mata atlântica, pampas –, tem suscitado especial cobiça internacional e tem sido aceleradamente destruída, até mesmo com a ameaça de extinção de suas espécies.A devastação ambiental da Amazônia e agressões à dignidade, à cultura dos povos indígenas, por parte de fortes interesses e grupos econômicos se intensificam.O acervo de conhecimentos tradicionais sobre a utilização dos recursos naturais tem sido objeto de apropriação intelectual ilícita, sendo patenteados por indústrias farmacêuticas e de biogenética.4937. A isso se soma a agressão à natureza, à terra e às águas tratadas como mercadoria negociável, disputada pelas grandes potências.50 A situação é agravada, em contexto mais amplo, pelo aquecimento global, pelo 49 Cf. DA, n. 83.50 Cf. DA, n. 84.36 exaurimento dos recursos naturais e pela exploração predatória do bem comum, que é a natureza, por grupos ávidos de benefícios próprios. Trata-se de conseqüências de um modelo de desenvolvimento econômico capitalista-consumista, que privilegia o mercado financeiro e prioriza o agronegócio. Isso leva à expansão da pecuária extensiva e das monoculturas de soja, eucalipto, cana-de-açúcar, assim como a projetos como o do biocombustível, em detrimento da agricultura familiar, da reforma agrária e de projetos populares como a construção de cisternas, por exemplo,no semi-árido do país.Situação religiosa 38. Chamados a tecer laços de fraternidade, enquanto filhos de um mesmo Pai, vemos que a mentalidade individualista alastrou-se também no campo religioso.O indivíduo, sempre mais, escolhe sua religião num contexto pluralista. Mesmo aderindo a uma tradição ou a uma instituição religiosa, tende a escolher crenças,ritos e normas que lhe agradam subjetivamente ou se refugia numa adesão parcial, com fraco sentido de pertença institucional. Ou, ainda, procura construir,numa espécie de mosaico – sua religião pessoal com fragmentos de doutrinas e práticas de várias religiões.Finalmente, aumenta o número dos que recusam a adesão a qualquer instituição religiosa e consideram suas convicções uma “religião invisível”, com pouca 37ou nenhuma prática exterior. Cresce também a atração por práticas esotéricas, baseadas em falsas doutrinas,afetando a fé cristã.39. Constatamos também a tendência à inversão de sentido da experiência religiosa. Nesse caso, a religião deixa de ser pensada e vivida como uma forma de reconhecimento, adoração e entrega ao Criador, obediência na fé, serviço a Deus e vivência comunitária.É vista numa ótica utilitarista, por oferecer bem-estar interior, terapia ou cura de males, sucesso na vida e nos negócios, como aparece na chamada “teologia da prosperidade”. Nessa modalidade, a religião se torna muito procurada, inclusive pela mídia. Esta acaba por banalizar a religião, reduzi-la a mais um espetáculo para entreter o público. Faz-se presente uma crescente tendência, em alguns setores da sociedade, em admitira prática religiosa apenas na esfera privada, em base a uma sociedade laicista, criticando as manifestações da Igreja em matéria de moral e presença na vida pública.40. Há igualmente, em novas expressões religiosas, uma tendência generalizada, inclusive por influência decertos psicólogos, a afirmar sem mais a inocência dos indivíduos, de modo que ninguém deve se sentir pecador ou culpado. Outros grupos religiosos atribuem toda a culpa aos demônios ou aos espíritos malignos.Há, todavia, movimentos religiosos autônomos que,através de proselitismo, enganam com a chamada “te38 ologia da prosperidade”. Conseqüentemente, ninguém se sente responsável por corrigir o que está errado na sociedade, na qual convivem, estranhamente, muita religiosidade e muita criminalidade, busca de Deus e injustiça.41. Essas tendências, no Brasil, apareceram nos dados do Censo 2000, que evidenciam também a diversidade das situações regionais: metrópoles e mundo rural,litoral e interior, Nordeste e outras grandes áreas. 51 Pesquisas mais recentes do IBGE e da Fundação Getúlio Vargas trazem novos dados à reflexão,52 mas que precisam ser avaliados com prudência. Por exemplo, o Censo pergunta pela religião do entrevistado. Ora, um bom número de brasileiros frequenta atos religiosos 51 “Os principais dados relativos à questão ‘religião’ são três: a) A diminuição da porcentagem dos cristãos católicos, de 83,3% (1991) para 73,9% (2000);essa diminuição, de quase dez pontos percentuais em nove anos, foi muito rápida, se considerarmos que uma diminuição semelhante aconteceu, anteriormente,num prazo de noventa anos (de 98,9% em 1890 para 89,0% em 1980); b) O aumento da porcentagem dos cristãos evangélicos, de 9,0%(1991) para 15,6% (2000); c) O aumento dos que se declararam ‘sem religião’, que passaram de 4,7% da população (1991) para 7,4% (2000),ou de 7 milhões para 12,5 milhões” (Cf. CNBB. Doc. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: 2003-2006, n. 56. São Paulo,Paulinas, 2003).52 Pela primeira vez desde 1872, a diminuição do número de católicos teve um estancamento entre 2000 e 2003 (73,89% – 73,79%). Os que se declaravam sem religião caem de 7,4% para 5,1%. Os evangélicos (conjuntamente tradicionais e pentecostais) seguem seu crescimento, passando de 16,2%para 17,9%. O crescimento dos evangélicos tradicionais está se dando a taxas mais aceleradas que os evangélicos pentecostais, sendo essa outra novidade a ser ressaltada.39 de várias denominações.53 Além disso, uma pesquisa qualitativa mostraria que há muitos modos de crer e de praticar dentro do próprio catolicismo, no mundo evangélico ou em outras religiões.42. Outra observação importante é que os dados sobre religião podem ser comparados com outros dados do Censo, como diminuição da natalidade, aumento das uniões consensuais sem legalização, aumento da escolaridade etc. Todos esses dados apontam para uma modernização dos hábitos da população brasileira e para um crescimento do individualismo e do subjetivismo.43. Também não parece exato dizer que o país se tornou menos religioso. As pesquisas recentes mostram que a religiosidade continua alta entre os brasileiros. A declaração “sem religião” parece indicar mais uma“des-institucionalização” da religião e a emergência da chamada “religião invisível”. O indivíduo não adere mais a uma religião institucionalizada, mas não deixa de acreditar em Deus e de rezar, ocasionalmente. Não obstante, não podemos desconhecer a existência de pessoas que se dizem ateias 44. No catolicismo contemporâneo existe um bom número elevado de fiéis que, como batizados e crismados, se 53 A pesquisa do CERIS, em 2002, nas seis maiores regiões metropolitanas brasileiras, encontrou cerca de 25% dos entrevistados que frequentam atos de mais de uma religião e cerca de metade deles (12,5% do total) o fazem sempre. 40 dedicam muitas horas por semana ao trabalho pastoral ou à evangelização. Certamente tem influenciado nessa realidade a crescente consciência da missão evangelizadora da Igreja no Brasil, impulsionada por diretrizes,documentos do episcopado brasileiro e constante trabalho nos serviços e organismos de pastoral, nas CEBs, nas associações e nos movimentos eclesiais enovas comunidades. Igualmente, sucessivos Projetos Nacionais de Evangelização da CNBB 54 têm ajuda do missionariamente os esforços de renovação de nossas paróquias, pastorais, comunidades e movimentos.Deve-se lembrar ainda a crescente presença da Igreja na mídia.45. No campo religioso, constatamos ainda que muitas Igrejas, que se denominam evangélicas, mostram-se dinâmicas na procura de novos fiéis, chegando até ao proselitismo. Cabe, porém, uma avaliação da qualidade de nossa presença junto ao povo, como exigência da própria missão de evangelizar. A organização da Igreja Católica está muito dependente do padre e da paróquia.Ora, o número dos padres não tem crescido no mesmo ritmo que o da população.55 Por isso, podemos nos perguntar se, diante das mudanças socioculturais, as estruturas pastorais e o atendimento da Igreja Católica 54 Como, por exemplo, os projetos “Rumo ao Novo Milênio”, “Ser Igreja no Novo Milênio”, “Queremos Ver Jesus”.55 Em 1970 havia um padre para 7.100 habitantes; em 1990, um padre para 10.100 habitantes. Desde então, essa proporção deficitária de padres/habitantes se mantém estável. 41 conseguiram alcançar adequadamente, por exemplo,as populações nas periferias metropolitanas, nas fronteiras agrícolas e na região Amazônica.46. Diante disso, acolhendo a conclamação da Conferência de Aparecida, nossas comunidades eclesiais são chamadas a uma verdadeira conversão pastoral. Essa conversão exige que se vá para além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária.56 Uma verdadeira conversão pastoral deve estimular-nos e inspirar-nos atitudes e iniciativas de auto-avaliação e coragem de mudar várias estruturas pastorais em todos os níveis, serviços, organismos,movimentos e associações. Temos necessidade urgente de viver na Igreja a paixão que norteia a vida de Jesus Cristo: o Reino de Deus, fonte de graça, justiça, paz e amor. Por esse Reino, o Senhor deu a vida.56 Cf. DA, n. 370.
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